Quarta, feira de cinzas…
- 9 de mar. de 2011
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Com o aval da carne… pós-carnaval… Cortázar:
AFTER SUCH PLEASURES
Esta noite, buscando tua boca em outra boca, e quase crendo, porque assim de cego é este rio que me lança em mulher e me submerge entre suas pálpebras, que tristeza nadar ao fim até a orelha da sonolência sabendo que o prazer é esse escravo desleal que aceita as moedas falsas, as circula sorrindo.
Esquecida pureza, como gostaria de resgatar essa dor de Buenos Aires, essa espera sem pausas nem esperança. Somente em minha casa aberta sobre o porto outra vez começar a querer-te, outra vez encontrar-te no café da manhã sem que tanta coisa irrenunciável houvesse ocorrido. E não ter que lembrar-me deste esquecimento que sobe para nada, para apagar do quadro-negro teus rabiscos e não deixar-me mais que uma janela sem estrelas.
O FUTURO
Eu sei muito bem que não estarás.
Não estarás na rua
no murmúrio que brota da noite
nos postes de iluminação,
nem no gesto de escolher no cardápio,
nem no sorriso que alivia o aperto nos metrôs
nem nos livros emprestados,
nem nele até amanhã.
Não estarás em meus sonhos,
no destino original de minhas palavras,
nem em uma cifra telefônica estarás,
ou na cor de um par de luvas
ou numa blusa.
Me irritarei
meu amor
sem que seja por ti,
e comprarei bombons
mas não para ti,
e irei parar na esquina
a qual não virás
e direi as coisas que se dizem
e comerei as coisas que se comem
e sonharei os sonhos que se sonham.
E sei muito bem que não estarás
nem aqui dentro do cárcere onde te retenho,
nem ali afora
nesse rio de ruas e de pontes.
Não estarás para nada,
não serás minha recordação
e quando pense em ti
pensarei um pensamento
que obscuramente trata de lembrar-se de ti.



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