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Poesias e Canções para Che

  • 8 de ago. de 2011
  • 6 min de leitura


Che Guevara é, dentre todos os lutadores, o que mais inspirou obras artísticas e homenagens. Abaixo segue para download um CD só de canções para Che Guevara e abaixo uma pequena seleção de poesias para Che de Julio Cortazar, Eduardo Galeano, Nicolas Guillen e um longo e bonito poema de Ferreira Gullar descrevendo o instante da morte de Che Guevara.

Para baixar o CD “Che Vive!” clique aqui!


CHE – Julio Cortazar

Eu tive um irmão Não nos vimos nunca mas não importava.

Eu tive um irmão que andava na selva enquantto eu dormia.

O amei ao meu modo, lhe tomei a voz livre como a água, caminhei às vezes perto de sua sombra. meu irmão desperto enquanto eu dormia.

Meu irmão mostrando-me por detrás da noite a sua estrela eleita.

O NASCEDOR – Eduardo Galeano

Por que será que o Che tem esse perigoso costume de seguir sempre renascendo? Quanto mais o insultam, o manipulam o tradicionam, mais renasce. Ele é o mais renascedor de todos! Não será porque o Che dizia o que pensava, e fazia o que dizia? Não será por isso, que segue sendo tão extraordinário, num mundo em que as palavras e os fatos raramente se encontram? E quando se encontram, raramente se saúdam, porque não se reconhecem?

CHE GUEVARA – Nicolas Guillen

Como se a mão pura de San Martín* Tivesse se estendido para seu irmão, Martí, E o Prata, de margens verdejantes, corresse pelo mar Para se juntar à embocadura cheia de amor do Cauto.

Assim Guevara, gaúcho de voz forte, agiu para dedicar Seu sangue guerrilheiro a Fidel, E sua mão larga teve mais espírito de camaradagem Quando nossa noite era mais negro, mais escura.

A morte recuou. De suas sombras impuras, Do punhal, do veneno e das feras, Só restam lembranças selvagens.

Fundida dos dois, uma única alma brilha, Como se a mão pura de San Martín Tivesse se estendido para seu irmão, Martí.

* San Martin foi um grande general argentino que lutou pela independência de seu país, assim como Martí em Cuba.

DENTRO DA NOITE VELOZ – Ferreira Gullar

I Na quebrada do Yuro eram 13,30 horas (em São Paulo era mais tarde; em Paris anoitecera; na Ásia o sono era seda) Na quebrada do rio Yuro a claridade da hora mostrava seu fundo escuro: as águas limpas batiam sem passado e sem futuro. Estalo de mato, pio de ave, brisa nas folhas era silêncio o barulho a paisagem (que se move) está imóvel, se move dentro de si (igual que uma máquina de lavar lavando sob o céu boliviano, a paisagem com suas polias e correntes de ar) Na quebrada do Yuro não era hora nenhuma só pedras e águas

II Não era hora nenhuma até que um tiro explode em pássaros e animais até que passos vozes na água rosto nas folhas peito ofegando a clorofila penetra o sangue humano e a história se move a paisagem como um trem começa a andar Na quebrada do Yuro eram 13,30 horas

III Ernesto Che Guevara teu fim está perto não basta estar certo para vencer a batalha Ernesto Che Guevara Entrega-te à prisão não basta ter razão pra não morrer de bala Ernesto Che Guevara não estejas iludido a bala entra em teu corpo como em qualquer bandido Ernesto Che Guevara por que lutas ainda? a batalha está finda antes que o dia acabe Ernesto Che Guevara é chegada a tua hora e o povo ignora se por ele lutavas

IV Correm as águas do Yuro, o tiroteio agora é mais intenso, o inimigo avança e fecha o cerco. Os guerrilheiros em pequenos grupos divididos agüentam a luta, protegem a retirada dos companheiros feridos. No alto, grandes massas de nuvens se deslocam lentamente sobrevoando países em direção ao Pacífico, de cabeleira azul. Uma greve em Santiago. Chove na Jamaica. Em Buenos Aires há sol nas alamedas arborizadas, um general maquina um golpe. Uma família festeja bodas de prata num trem que se aproxima de Montevidéu. À beira da estrada muge um boi da Swift. A Bolsa no Rio fecha em alta ou baixa. Inti Peredo, Benigno, Urbano, Eustáquio, Ñato castigam o avanço dos rangers . Urbano tomba, Eustáquio Che Guevara sustenta o fogo, uma rajada o atinge, atira ainda, solve-se-lhe o joelho, no espanto os companheiros voltam para apanhá-lo. É tarde. Fogem. A noite veloz se fecha sobre o rosto dos mortos.

V Não está morto, só ferido Num helicóptero iangue é levado para Higuera onde a morte o espera Não morrerá das feridas ganhas no combate mas de mão assassina que o abate Não morrerá das feridas ganhas a céu aberto mas de um golpe escondido ao nascer do dia Assim o levam pra morte (sujo de terra e de sangue) subjugado no bojo de um helicóptero ianque É seu último vôo sobre a América Latina sob o fulgir das estrelas que nada sabem dos homens que nada sabem do sonho, da esperança, da alegria, da luta surda do homem pela flor da cada dia É seu último vôo sobre a choupana de homens que não sabem o que se passa naquela noite de outubro quem passa sobre seu teto dentro daquele barulho quem é levado pra morte naquela noite noturna

VI A noite é mais veloz nos trópicos (com seus na vertigem das folhas na explosão monturos) das águas sujas surdas nos pantanais é mais veloz sob a pele da treva, na conspiração de azuis e vermelhos pulsando como vaginas frutas bocas vegetais (confundidos com sonhos) ou um ramo florido feito um relâmpago parado sobre uma cisterna d´água no escuro É mais funda a noite no sono do homem na sua carne de coca e de fome e dentro do pote uma caneca de lata velha de ervilha da Armour Company A noite é mais veloz nos trópicos com seus monturos e cassinos de jogos entre as pernas das putas o assalto a mão armada aberta em sangue a vida. É mais veloz (e mais demorada) nos cárceres a noite latino-americana entre interrogatórios e torturas (lá fora as violetas) e mais violenta (a noite) na cona da ditadura Sob a pele da treva, os frutos crescem conspira o açúcar (de boca para baixo) debaixo das pedras, debaixo da palavra escrita no muro ABAIX e inacabada Ó Tlalhuicole as vozes soterradas da platina Das plumas que ondularam já não resta mais que a lembrança no vento Mas é o dia (com seus monturos) pulsando dentro do chão como um pulso apesar da South American Gold and Platinum é a língua do dia no azinhavre Golpeábamos en tanto los muros de adobe y era nuestra herencia una red de agujeros é a língua do homem sob a noite no leprosário de San Pablo nas ruínas de Tiahuanaco nas galerias de chumbo e silicose da Cerro de Pasço Corporation Hemos comido grama salitrosa piedras de adobe lagartijas ratones tierra en polvo y gusanos até que (de dentro dos monturos) irrumpa com seu bastão turquesa

VII Súbito viemos ao mundo E nos chamamos Ernesto Súbito viemos ao mundo e estamos na América Latina Mas a vida onde está nos perguntamos Nas tavernas? nas eternas tardes tardas? nas favelas onde a história fede a merda? no cinema? na fêmea caverna de sonhos e de urina? ou na ingrata faina do poema? (a vida que se esvai no estuário do Prata) Serei cantor serei poeta? Responde o cobre (da Anaconda Copper): Serás assaltante E proxeneta Policial jagunço alcagueta Serei pederasta e homicida? serei o viciado? Responde o ferro (da Bethlehem Steel): Serás ministro de Estado e suicida Serei dentista talvez quem sabe oftalmologista? Otorrinolaringologista? Responde a bauxita (da Kaiser Aluminium): serás médico aborteiro que dá mais dinheiro Serei um merda quero ser um merda Quero de fato viver. Mas onde está essa imunda vida – mesmo que imunda? No hospício? num santo ofício? no orifício da bunda? Devo mudar o mundo, a República? A vida terei de plantá-la como um estandarte em praça pública?

VIII A vida muda como a cor dos frutos lentamente e para sempre A vida muda como a flor em fruto velozmente A vida muda como a água em folhas o sonho em luz elétrica a rosa desembrulha do carbono o pássaro da boca mas quando for tempo E é tempo todo o tempo mas não basta um século para fazer a pétala que um só minuto faz ou não mas a vida muda a vida muda o morto em multidão


 
 
 

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