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nas teias

um poema do buk…


Morte deseja mais morte

morte deseja mais morte, e sua teia está cheia: eu me lembro da garagem de meu pai, quando criança eu ia limpar os corpos das moscas das janelas que elas pensavam ser saídas – seus pegajosos, feios e vibrantes corpos estourando-se como cachorros insandecidos contra o vidro somente para girar e rodopiar naquele segundo maior que o inferno e que o céu para dentro do limite do limite, e então a aranha de seu buraco negro nervosa e exposta o seu corpo crescendo inchando pendurado ali sem realmente saber, e então sabendo – alguma coisa a mandando pra baixo em seu fio, a úmida teia, na direção do fraco escudo de zumbidos, a pulsação; um último movimento desesperado ali contra o vidro ali vivo contra o sol, girando em branco; e quase como amor: o enclausuramento, o silencioso e primeiro sugar da aranha: enchendo seu abdômen sobre essa coisa que vivia; se agachando ali sobre suas costas forçando seu sangue certo enquanto o mundo segue lá fora e minha têmpora grita e eu arremesso a vassoura contra eles: a aranha sonsa com sua raiva-de-aranha ainda pensando sobre sua presa e acenando uma assombrosa perna troncha a mosca imóvel, um naco sujo preso na palha da vassoura; eu sacudo a assassina desconjuntada e ela caminha fraca e enervada até algum canto escuro mas eu intercepto seu lento esforço arrastando-se como algum herói fudido, e a palha esmaga suas pernas agora arqueadas sobre sua cabeça e olhando olhando o inimigo e de alguma forma ainda valente, morrendo sem aparente dor simplesmente se arrastando para trás pedaço por pedaço deixando nada ali até que finalmente seu saco visceral vermelho espirra seus segredos, e eu corro como criança com a raiva de Deus logo atrás de mim, de volta aos simples raios de sol, imaginando à medida que o mundo segue com um sorriso enroscado se mais alguém viu ou percebeu meu crime.


 
 
 

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