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Júlio

  • 16 de ago. de 2010
  • 2 min de leitura

Algumas tra(b)duções de Cortázar…


“Sempre serei como um menino para tantas coisas, mas um desses guris que desde o começo carregam consigo o adulto, de maneira que quando o monstrinho chega verdadeiramente à idade do adulto ocorre que, por sua vez, carrega consigo o menino, e no meio do caminho se dá uma coexistência poucas vezes pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo.

Isto pode ser entendido metaforicamente, mas indica, em todo caso, um temperamento que não renuncia à visão pueril como preço da visão adulta, e essa justaposição que convém ao poeta e talvez ao criminoso, e também ao cronópio e ao humorista (questão de doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula, de escolhas: agora jogo, agora mato) manifesta-se no sentimento de não estar de todo em qualquer das estruturas, em quaisquer das teias que a vida arma e onde somos ao mesmo tempo aranha e mosca.” (Cortázar)

ÚLTIMOS CINCO POEMAS PARA CRIS

I. Agora escrevo pássaros. Não os vejo chegar, não escolho, de repente estão aí, um bando de palavras a pousar uma por uma nos arames da página, entre chilreios e bicadas, chuva de asas, e eu sem pão para dar, tão somente deixo-os vir. Talvez seja isto uma árvore, ou quem sabe, o amor.

ANTES, DEPOIS…

Como os jogos ao pranto como a sombra à coluna o perfume desenha o jasmim o amante precede o amor como a carícia à mão o amor sobrevive ao amante porém inevitavelmente ainda que não haja rastro nem presságio

ainda que não haja rastro nem presságio como a carícia à mão o perfume desenha o jasmim o amante precede o amor porém inevitavelmente o amor sobrevive ao amante como os jogos ao pranto como a sombra à coluna

como a carícia à mão ainda que não haja rastro nem presságio o amante precede o amor o perfume desenha o jasmim como os jogos ao pranto como a sombra à coluna o amor sobrevive ao amante porém inevitavelmente…

BOLERO

Que vaidade imaginar que posso te dar tudo, o amor e o futuro, itinerários, música, joguetes. É certo que é assim: tudo meu te dou, é certo, mas tudo meu não te basta como a mim não me basta que me dês tudo teu.

Por isso não seremos nunca o casal perfeito, o cartão postal, se não somos capazes de aceitar que só na aritmética o dois nasce do um mais um.

Por aqui um papelzinho que somente diz:

Sempre fostes meu espelho, quero dizer que para me ver tinha que te olhar.

SEMPRE COMEÇAVA A CHOVER

Sempre começava a chover na metade da película, a flor que te levei tinha uma aranha esperando entre as pétalas.

Creio que o sabias e que favorecestes a desgraça. Sempre esqueci o guarda-chuvas antes de ir te buscar, o restaurante estava cheio e anunciavam a guerra nas esquinas.

Fui uma letra de tango para tua indiferente melodia.


 
 
 

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