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Julio Florencio Cortázar (argentina)

  • 1 de mai. de 2010
  • 4 min de leitura


Depois do fracasso de seu primeiro livro de poesias, os amigos o aconselharam a voltar praqueles continhos que escrevia desde sempre… seu afastamento da poesia foi o que lhe garantiu a fantástica carreira de contista e romancista: Julio Cortázar. Era um figura exótico: rolam boatos que tomou hormônios para desenvolver a barba (morria de vontade de ser barbudo), tinha certeza de que não viveria para além dos 30 (viveu até os 70), e era extremamente tímido (há várias histórias sobre relacionamentos enormes em que ele nem beijava a garota). Achei um poema que escreveu para sua primeira namorada, ainda no processo de conquistá-la: “Não pergunte quem coloca neste canto / uma alma destinada ao sofrimento / e um pobre coração que te ama tanto; / se tu o adivinhas, nada te espante; / mas se não me encontras em teu sentimento / de nada serve que te dê meu nome”. Curiosidades que ajudam a criar a imagem do mito, mas há o chão concreto, ali, em que pisou.

Socialista, a medida que foi se engajando concretamente, passou a apoiar diversas lutas durante o período das guerrilhas na américa latina. Nesse mesmo passo, sua literatura foi radicalizando-se em experimentos vanguardistas, mas também absorvendo reflexões das lutas que acompanhava, atento à necessidade de que os valores de um futuro socialista fossem cultivados desde já, na luta contra os inimigos: “a luta pelo socialismo na América Latina deve enfrentar o horror cotidiano guardando, de maneira preciosa e zelosa, aquela capacidade de viver que desejamos para esse futuro, com tudo aquilo que isso supõe de amor, de jogo e de alegria”. Tornou-se amigo de vários escritores guerrilheiros como Ernesto Cardenal e Roque Dalton. Dizia, sempre provocativo: “Temos mais necessidade de Che Guevaras da linguagem e de revolucionários da literatura do que de letrados da revolução”. Em seu universo, a política convivia com a literatura sem que uma fosse considerada mais ou menos verdadeira que a outra: “Quando faço política, faço política. E quando faço literatura, faço literatura. Mesmo quando faço literatura de conteúdo político – como O livro de Manuel, por exemplo, faço literatura. O que eu simplesmente faço é colocar o veículo literário, não direi a serviço, mas em uma direção que possa ser politicamente útil”. Importante apontar, também, que foi criticado por vários grupos de esquerda por possuir uma posição cômoda de apoio à luta socialista, por ter se auto-exilado em Paris durante a ditadura na Argentina.

Amor, revolução e literatura compuseram o triângulo da aventura cortaziana. Aqui, tra(b)duzo alguns poemas sobre o primeiro elemento, o amor, seus relacionamentos, desventuras e tudo mais. Ao final, de brinde ;), segue um vídeo onde Julio explica como surgiram as figuras dos cronópios e famas, personagens fantásticos de seu livro “Histórias de Cronópios e Famas”.


UMA CARTA DE AMOR

Tudo que de você eu quis é tão pouco no fundo porque no fundo é tudo,

como um cachorro que passa, uma colina, essas coisas de nada, cotidianas, espiga, cabeleira e dois torrões o odor de teu corpo, o que diz de qualquer coisa, comigo ou contra mim,

tudo isso é tão pouco, e quero tudo isso de vós porque te quero.

Que olhes para além de mim, que me ames com violenta prescindência da manhã, que o grito de sua entrega se lance na cara de um chefe de repartição,

e que o prazer que juntos inventamos seja outro signo da liberdade.

OS AMANTES

Quem os vê andar pela cidade se todos estão cegos? Eles se tomam pelas mãos: algo fala entre seus dedos, línguas doces lambem a úmida palma, gozam pelas falanges, e acima está a noite cheia de olhos.

São os amantes, sua ilha flutua à deriva até mortes de relva, até portos que se abrem entre lençóis. Tudo se desordena através deles, tudo encontra sua cifra escamoteada; Mas eles nem sequer sabem que enquanto rodam em sua amarga arena há uma pausa na obra do nada, o tigre é um jardim que joga.

Amanhece nos carros de lixo, começam a sair os cegos, o ministério abre suas portas. Os amantes rendidos se olham e se tocam uma vez mais antes de cheirar o dia.

Já estão vestidos, já se vão pela rua. E é só então quando estão mortos, quando estão vestidos, que a cidade os recupera hipócrita e lhes impõe os deveres cotidianos.


TALVEZ A MAIS QUERIDA

Me disse a intempérie, a leve sombra de tua mão passando pela minha cara. Me disse o frio, a distância, o amargo café da meia-noite entre mesas vazias.

A LENTA MÁQUINA DO DESAMOR

A lenta máquina do desamor, as engrenagens do refluxo, os corpos que abandonam os travesseiros, os lençóis, os beijos, e de pé ante o espelho interrogando-se cada um a si mesmo, já não se olhando entre eles, já não desnudos para o outro, já não te amo, meu amor.

O BREVE AMOR

Com que tersa doçura me levanta do leito em que sonhava profundas plantações perfumadas,

me passeia os dedos pela pele e me desenha no espaço, de forma instável, até que o beijo se pousa curvo e recorrente,

para que o fogo lento comece a dança cadenciada da fogueira tecendo-se em rajadas, em hélices, ir e vir de um furacão de fumaça…

Por quê, depois, o que sobra de mim é só um inundar-se entre as cinzas sem um adeus, sem nada mais que o gesto de liberar as mãos?

O QUE ME AGRADA DE TEU CORPO…

O que me agrada de teu corpo é o sexo. O que me agrada de teu sexo é a boca. O que me agrada de tua boca é a língua. O que me agrada de tua língua é a palavra.


ORIGEM DOS CRONÓPIOS E FAMAS



 
 
 

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