Jogar a vida
- 8 de dez. de 2010
- 3 min de leitura

Estou lendo o “Rayuela” de Cortázar (em português, “Jogo de Amarelinha”). É considerado a obra máxima do autor. São muitos livros dentro de um, já que vc pode montar o livro segundo a ordem de capítulos que quiser. Há pelo menos duas leituras sugeridas no prefácio por Cortázar. O livro fala sobre a vida, as paixões e as possibilidades de se jogar esse jogo da vida, essa que sempre se coloca a nossa frente e pergunta “quer jogar?”. O livro trata disso e da possibilidade de se chegar ao “céu” (da vida e do jogo da amarelinha), e claro, ao “inferno”. Há algum tempo assisti um show do Gotan Project numa noite muito bonita e especial pra mim, noite de coração cheio. Lá eles cantaram uma música em homenagem ao Cortázar chamada “Rayuela” que diz
“Hay que saber mover los pies. En la rayuela, o en la vida vos podes elegir un día. ¿Por que costado, de que lado saltarás?”
Durante a música, aparece a voz de cortázar declamando trechos de “Rayuela”. Um desses trechos segue abaixo. O vídeo do clip da música também. E depois mais alguns poemas de Cortázar que tra(b)duzo.
CLIP DA MÚSICA “RAYUELA” DO GOTAN PROJECT
UM TRECHO DE RAYUELA LIDO POR CORTÁZAR NA MÚSICA
“Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”
TALA
Leve estes olhos, pedrinhas de cores, este nariz de tótem, estes lábios que sabem todas as tábuas de multiplicar e as poesias mais seletas. Te dou a face inteira, com a língua e o cabelo, me livro das unhas e dentes e lhe completo o peso. Não serve essa maneira de sentir. Que olhos nem que dedos. Nem essa comida requentada, a memória, nem a atenção, como uma matraca perniciosa. Tome as induções e os cabides onde se penduram as palavras lavadas e engomadas. Fustigue com a casa, fora de tudo, deixe-me como um oco, ou uma estaca. Talvez então, quando não me valha a generosidade de Deus, esse menino escoteiro, e esteja igual ao tapete que suportou sua lenta chuva de sapatos oitenta anos e é urdido somente, claro esqueleto donde se apagaram os ricos pavões de prata, pode ser que sim vos diga teu nome certo pode ocorrer que alcance sem mãos tua cintura.
DEPOIS DAS FESTAS
E quando todo mundo se foi e restamos os dois entre vasos vazios e cinzeiros sujos,
que bonito era saber que estavas alí como um remanso, sozinha comigo à beira da noite, e que duravas, eras mais que o tempo,
eras a que não se ia porque um mesmo travesseiro e uma mesma preguiça indolente iria charmar-nos outra vez para despertar ao novo dia, juntos, rindo, descabelados.
UMA CARTA DE AMOR
Tudo que de você eu quis é tão pouco no fundo porque no fundo é tudo,
como um cachorro que passa, uma colina, essas coisas de nada, cotidianas, espiga, cabeleira e dois torrões o odor de teu corpo, o que diz de qualquer coisa, comigo ou contra mim,
tudo isso é tão pouco, e quero tudo isso de vós porque te quero.
Que olhes para além de mim, que me ames com violenta prescindência da manhã, que o grito de sua entrega se lance na cara de um chefe de repartição,
e que o prazer que juntos inventamos seja outro signo da liberdade.



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