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Cortázar e Cris

  • 7 de mai. de 2012
  • 4 min de leitura


Júlio Cortázar foi apaixonado pela escritora Cristina Peri Rossi que conheceu em seu exílio na França. O amor era não-correspondido ou parcialmente correspondido já que Cristina gostava de mulheres. Apesar disso, desenvolveram por muitos anos uma profunda amizade e intensa troca. Cortázar escreveu 15 poemas dedicados a “Cris”, como a chama… segue abaixo a tradução que fiz…

CINCO POEMAS PARA CRIS

I Já muito além do meio «camin de nostra vita» existe um território do amor um labirinto mais mental que mítico onde é possível ser lentamente feliz sem o fio de Ariadne delirante sem espumas nem lençóis nem coxas.

Tudo se cumpre em um reflexo do crepúsculo teu cabelo teu perfume tua saliva. E ali do outro lado te possuo enquanto jogas com tua amiga os jogos da noite.

II Na realidade pouco me importa que teus seios durmam na azul simetría de outros seios. Eu os teria pisado com a cócega de meu roçar e te riria justamente quando o necessário e esperado era que soluçasse.

III Sei muito bem o que ganhas quando te perdes no gozo. Porque é exatamente o que eu senti.

IV (A justa errata) termos nos encontrado ao final do dia em um passeio público.

V (Gostaria que acreditasse que isto é o irrisório jogo das compensações com que consolo esta distância. Segue então dançando no espelho do outro corpo depois de haver sorrido apenas para mim.)

OUTROS CINCO POEMAS PARA CRIS

I Tudo o que precede é como os primeros momentos de um encontro depois de muito tempo: sorrisos, perguntas, lentos reajustes. É raro, me pareces menos morena que antes. Se melhorou enfim tua tia avó? Não, não me agrada a cerveja. É verdade, havia esquecido. E por debaixo, montacargas de sombra, ascende devagar outro presente. Em teu cabelo começam a tremer as abelhas, tua mão roça a minha e põe nela um doce algodão de fumaça. Cheiras de novo a sul.

II Tens por vezes a cara do exílio esse que busca voz em teus poemas. Meu exílio é menos duro, lhe sobram as defesas, mas quando te levo pela mão por uma ruazinha de Paris gostaria tanto que o passeio se acabasse em uma esquina de Montevideo ou na minha rua Corrientes

sem que ninguém viesse pedir documentos.

III As vezes creio que poderíamos conciliar os contrários falar a centritude imóvel da roda sair do binário ser o vertiginoso espelho que concentra em um vértice último esta ceremoniosa dança que dedico a tua presente ausência.

Recordo a Saint-Exupéry “O amor não é olhar o que se ama senão olhar os dois em uma mesma direção”

Mas ele não suspeitou que tantas vezes os dois miramos fascinados a uma mesma mulher e que a esplêndida, feliz definição cai por terra como um cinza fantoche.

IV Creio que não te quero, que somente quero a imposibilidade tão óbvia de querer-te como a mão esquerda enamorada dessa luva que vive na direita.

V Ratinho, penugem, meialua, caleidoscópio, barco na garrafa, musgo, sino, diáspora, palingenesia*, feto,

isso, e o doce de abóbora, o bandoneón de Troilo**, e duas ou três zonas da pele onde faz ninho o alcião***,

são as palavras que contêm tua cruel definição inalcançável, são as coisas que guardam as substâncias de que estás feita para que alguém beba e possa e arda convencida de conhecer-te inteira, de que somente és Cris.

* renascimento, reencarnação ** Aníbal Troilo foi um dos mais importantes e populares músicos da história do tango. *** Ave mitológica que fazia ninho sobre o mar.

CINCO ÚLTIMOS POEMAS PARA CRIS

I Agora escrevo pássaros. Não os vejo chegar, não escolho, de repente estão aí, um bando de palavras a pousar uma por uma nos arames da página, entre chilreios e bicadas, chuva de asas, e eu sem pão para dar, tão somente deixo-os vir. Talvez seja isto uma árvore,

ou quem sabe, o amor.

II À noite te sonhei sacerdotisa de Sekhmet, a deusa leontocéfala. Ela desnuda em pórfiro*, tua limpa pele desnuda. Que oferenda lhe rendias a deidade selvagem que olhava através de teu olhar um horizonte eterno e implacável? A taça de tuas mãos continha a libação secreta, lágrimas ou teu sangue menstrual, ou tua saliva. Em todo caso não era sêmen e meu sonho sabia que a oferenda seria rechaçada com um lento rugido desdenhoso tal como desde sempre o havia esperado.

Depois, quiçá, já não o sei, as garras em teus seios, te satisfazendo.

* tipo de rocha ígnea, formada a partir da lava vulcânica.

III Nunca saberei porque tua língua entrou em minha boca quando nos despedimos em teu hotel depois de um amistoso percorrer a cidade e um ajuste preciso de distâncias.

Acreditei por um momento que me davas um encontro futuro, que abrias uma terra de ninguém, um interregno por onde alcançar teu minucioso musgo.

Circundada de amigas me beijaste, eu a exceção, o monstro, e tu a transgressora murmurante.

Quem saberá a quem beijavas, de quem te despedias. Fui o vigário feliz de um só instante, o que às vezes encontra em sua saliva um breve gosto a madressilva sob céus austrais.

IV Quisera ser Tirésias* esta noite e em uma lenta espera de bruços receber-te e gemer sob teus chicotes e tuas fracas medusas.

Sabendo que é a hora da metamorfose recorrente, e que ao baixar ao vórtice de espumas te abririas chorando, docemente empalada.

Para voltar depois a teu imperioso reino de falanges, ao cerco de tua pele, teus polvos úmidos, até arrastar-nos juntos e alcançar abraçados as areias do sonho.

Mas não sou Tirésias, tão somente o unicórnio que busca a água de tuas mãos e encontra entre os beiços um punhado de sal.

* Na mitologia grega, Tirésias foi um famoso profeta cego de Tebas – famoso por ter passado sete anos transformado em uma mulher.

V Não te vou cansar com mais poemas. Digamos que te disse nuvens, tesouras, barriletes, lápis, e por acaso alguma vez sorristes.


 
 
 

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