Bukowski e seu anti-lirismo
- 4 de jun. de 2010
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“Eu podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e eu ia ficar pobre. Mas eu particularmente não quero o dinheiro. Eu não sabia o que eu queria. Sim, eu sabia. Eu queria um lugar para me esconder, um lugar onde não precisasse fazer nada. O pensamento de ser algo não apenas me amedrontava, me enojava… de fazer parte das coisas, de fazer parte de piqueniques em família, do Natal, do 04 de julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães… ser um homem que nasceu para agüentar essas coisas e depois morrer? Eu prefiro ser uma máquina de lavar louça, voltar sozinho para uma sala pequena e beber até dormir. ” Bukowski em “Ham on Rye”, 1982
Jogo de apertar*
uma das coisas terríveis é realmente estar na cama noite após noite com uma mulher com quem você não quer mais trepar*. Elas ficam velhas, elas não parecem mais muito bem – elas mesmo tendem a roncar, perder a graça. Então, na cama, você se vira algumas vezes, seus pés tocam os dela – deus, que horrível! – e a noite está lá fora além das cortinas selando vocês juntos na tumba. E de manhã você vai ao banheiro, passa a sala, conversa, diz coisas estranhas; ovos fritos, motores ligando. Mas sentado contigo, lado a lado, você têm 2 estranhos entupindo de tostadas a boca queimando a cabeça soturna e as vísceras com café. Em 10 milhões de lugares na América é a mesma coisa – vidas azedas escoradas uma contra outra e sem lugar algum pra ir. Você entra no carro e dirige pro trabalho e há mais estranhos ali, a maioria deles esposas e maridos de alguém, e pralém da guilhotina do trabalho eles flertam e brincam e beliscam, alguns tendem a descarregar tudo numa trepada* rápida em algum lugar – eles não podem fazer em casa – e então eles dirigem de volta pra casa esperando pelo Natal ou pelo Dia do Trabalho ou pelo domingo ou alguma coisa.
* Buk brinca com o termo screw que pode ser, vulgarmente, transar ou, mais comumente, apertar, enroscar… O título do poema é “Screw-game”… não achei um equivalente interessante para manter o jogo…
É o modo como você joga o jogo
chame-a de amor coloque-a de pé sob a luz imperfeita ponha-lhe um vestido reze cante implore chore ria apague as luzes ligue o rádio acrescente-lhe enfeites: manteiga, ovos crus, jornais de ontem; um cadarço novo, e então páprica, açúcar, sal, pimenta, ligue para sua tia velha e bêbada em Calexico; chame-a de amor, espeta-a bem, adicione repolho e molho de maçã, então a esquente primeiro no lado esquerdo, depois no direito, ponha-a numa caixa livre-se dela deixe-a nos degraus de uma porta vomitando como você fará nas hortênsias.
Mulher dormindo
Eu sento na cama à noite e te ouço roncando. Eu te conheci numa estação de ônibus e agora eu admiro suas costas terrivelmente brancas e manchadas com sardas de criança à medida que a lâmpada despe o insolúvel pesar do mundo sobre teu sono. Eu não posso ver teu pé mas eu devo imaginar que eles são os pés mais charmosos. A quem você pertence? Você é real? Eu penso em flores, animais, pássaros todos eles parecem mais do que bons e tão claramente reais. E você não ajuda muito sendo uma mulher. Nós somos cada um selecionados para ser alguma coisa. A aranha, a galinha. O elefante. É como se nós fossemos uma pintura pindurada em alguma parede de galeria – e agora a pintura se vira sobre suas costas, e sobre a curva do cotovelo eu posso ver uma boca, um olho um quase nariz. O resto de você está escondido fora de vista mas eu sei que você é contemporânea, uma moderna obra viva talvez não imortal mas nós temos nos amado. Por favor continue roncando.




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