Buk
- Trunca Edicoes

- 27 de fev. de 2010
- 2 min de leitura

Três tra(b)duções que fiz do Bukowski. O primeiro poema traz esse seu “lirismo” duro, de lágrimas secas; o segundo parte de seu sarcasmo pela vida dita normal de cada um; o último mostra todo seu desprezo pela literatura e, em especial, pela sua (vejam, esse desprezo é também construído, seu lugar comum tipico).
Um sorriso para relembrar
Nós tínhamos peixes dourados e eles davam voltas e voltas no aquário sobre a mesa perto da cortina pesada que cobria a janela panorâmica e minha mãe, sempre sorrindo, querendo que a gente ficasse feliz, me dizia: “Alegria, Henry!” e ela estava certa: é melhor ser feliz se você pode. Mas meu pai continuava batendo nela e em mim várias vezes na semana enquanto se enfurecia em seus 1m e 80, porque não conseguia entender o que estava atacando ele por dentro.
Minha mãe, pobre peixe, querendo ser feliz, apanhando duas ou três vezes por semana, me dizendo para ser feliz: “Henry, sorria! Por que você nunca sorri?”
E então ela sorria, para me mostrar como, e era o o sorriso mais triste que eu já vi.
Um dia os dourados morreram, todos os cinco, eles boiaram na água, assim de lado, seus olhos abertos ainda, e quando meu pai chegou em casa ele os jogou pro gato ali no chão da cozinha e nós assistíamos enquanto minha mãe sorria.
E a lua e as estrelas e o mundo
Longas caminhadas à noite – isso é o que é bom pra alma: espiando pelas janelas as esposas cansadas tentando afastar seus maridos pirados de cerveja.
Eu gosto de seus livros
Na fila de apostas outro dia um homem atrás de mim perguntou, “Você é Henry Chinaski?”
“Uh hum”, eu respondi.
“Eu gosto de seus livros”, ele mandou.
“Obrigado”, eu respondi.
“Quem você prefere nesta corrida?”, ele perguntou.
“Uh hum”, eu respondi.
“Eu gosto do cavalo 4”, ele me disse.
Eu fiz minha aposta e voltei pro meu lugar…
Na próxima corrida eu estou esperando na fila e aqui está o mesmo homem atrás de mim de novo. Tem pelo menos umas 50 filas mas ele tinha que achar a minha de novo.
“Eu acho que esta corrida favorece os fundistas”, ele disse para as costas do meu pescoço. “A pista parece pesada.”
“Escute”, eu disse, sem olhar ao redor, “é dar sorte ao azar falar sobre cavalos na pista…”
“Que tipo de regra é essa?” ele perguntou. “Deus não faz regras…”
Eu me virei e olhei pra ele: “talvez não, mas eu faço.”
Depois da próxima corrida eu fui pra fila, e dei uma espiada atrás: ele não estava.
Perdi outro leitor.
Eu perco 2 ou 3 por semana.
Beleza.
Vamos deixar que voltem pro
Kafka.



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