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Varando o varal

  • 20 de fev. de 2010
  • 4 min de leitura

Dando sequência ao “Desafios do olhar ou Foto-grafia”, eu, o Cássio Corrêa e o Paulo Vieira fizemos um poema sobre a foto, abaixo, elaborada pela camará Tina exclusivamente para este exercício. São três poemas com “pegadas” bem distintas. A minha versão ficou um tanto bizarra, apesar de boas sacadas. Antes de ler os poemas, sugiro uma boa olhada na foto. 🙂


foto cristina beskow

“Varal” por Cássio Corrêa

O inventário das bicicletas e camisas Se faz com o trançado das trepadeiras Que emoldura o quintal dos sentidos: Há algo no verde das folhas Que transforma o verde em verde.

Mas estarão as camisas mutiladas, Na tipóia do varal, esperando a cura pras suas umidades? A ausência dos braços é deficiência ou esquecimento? Diríamos mais: qual o limite entre o pano de chão e o traje a rigor?

Na casa parida pelas pilastras de madeira em posição de parto, Haverá vestígio, resquício ou lascas de alguém? Digo bandeira no alto do monte, não aluga-se. O cabide no gancho de gaiola, significa eu.

Amèlie Poulain em lápis de cor 021 e 070, sento na beira do muro, espiando a selva de coronel escondido onde deixo minha poesia secar depois da chuva.

“No varal” por Paulo Vieira

O velho salta de máquinas de respirar sem ar, um bungee-jump preso ao pulmão correndo a semana uma maratona de lençol

De uma das vindas do hospital trouxe para a velha umas bodas de ouro no bolso da camisa que ela então lavava contente com um sabão em pó de quem espalha sementes

Porque o velho trajava-se no leito como se dali fosse direto a uma reunião e esse compromisso o adiasse morrer

Aquela camisa social branca funcionou

Agora ela está pendurada no varal erguendo-se como os crucificados erguiam-se com braços em alavanca como se esticassem o pescoço por sobre o muro para ver o ar do vizinho

E quase seca da pneumonia a camisa é pega pela chuva trovões com pigarros na recaída do velho

É urgente que ele vá com qualquer roupa a camisa social branca quando pronta deverá seguir por telegrama ou malote ou talvez no porta malas do diplomata que o aguarda para a reunião

Chouveu sete dias com as primas tentando abafar trovões e esconder da velha que a reunião foi cancelada

A chuva passa, a camisa é seca mas um barro seco da pneumonia nela poderá ser um remorso de quem lavou a camisa direito e tratou bem do velho e que na despedida pensa que não

Um vento de sol bate, é só o vento de sol não é uma metáfora de alma mas a velha sabe que tão velho é o vento de sol que já é hora de desconfiar das primas e recolher a roupa

“Isto não é um varal” por Jefferson Vasques

são duas camisas com um monte de arbusto na frente quem tirou a foto realmente não sabia o que tava fazendo tem essa coisa desfocada bem na nossa cara e um resto sujo de coisas esparsas…

ou então

trata-se de um recurso refinado de nos imputar humildades: a inseta visão do mundo… mas, não… uma formiga teria mais que fazer do que observar coisas a secar… melhor hipótese seria a de uma tentativa de nos dar a visão objetiva de deus essa onipresença de olhos absolutos: como num piscar dum flash divino – etérnico e instantânico – sobre as roupas que não secam ou sobre os fantasmas da casa sobre memórias ao vento ou sobre esse monte de abandonos e nadas que nos vêem a mente enquanto olhamos a foto.

Mas por que deus, em pessoa, baixaria nessa selva de pequenas coisas pirralhas pra bater um instantâneo?

e então você olha de novo tentando ver como alguém que maquinou tudo… “que peça nos pregaria esse deus ex-machina? um mistério? uma tragédia? uma farsa?”

Olhando o olhar de quem olhou pelo obturador à olhar como quem olharia a foto sinto como se o clic se sujasse numa intenção exagerada de ser foto demasiadamente foto é um longo teatro do fazer-se flash filme e making-of tudo junto contracenando

putz, e se for isso mesmo aí você se incomoda e começa a pensar que não é só uma foto é um jogo, um quebra-cabeça, um crime, um presépio todo de hipóteses se levantando por entre as ramas do quintal…

tem aquele resto de pneu, no canto direito, que juntado a uma ponta de guidão com um teco de breque nos dão a hipótese – mais confiável – de uma bike encostada à parede. E não estaria com isso nos dizendo “não é tão evidente assim”, percebe? “Não se afobe, investiga com calma, não cede logo ao que tá na cara! tira essas folhas da frente, e segue…”

e seguindo essa lógica fui me perguntando porque a rede – único vermelho vivo no verde – estaria desarmada numa varanda tão agradável…

ah, elementar, meu caro…

Como Blade Runner caçando andróides, dou um zoom progressivo com o Photo Editor e caço os vestígios. E é assim que percebo, estupefato, que – como naquele filme bizarro do David Lynch – “no hay orquestra”, “no hay banda” é tudo play-back, farsa!

Calma, te explico, veja: não há varal! Logo, como haver camisa, camiseta, o escambau pendurado pra secar?

As “camisas” estão suspensas em coisas estranhas com cara de ganchos pra plantas! E por que não em varais, numa casa grande como essa, com jardins, rede e tais?

Elementar, elementar, meu caro…

As plantas e a rede meticulosamente desalojadas estão cedendo assim lugar ao palco em que seria armada a cena o drama o fotograma todo:

observem como as mangas duma camisa foram forçosamente injetadas pra dentro – ou vão me dizer que alguém pendura algo assim ao vento? – e a outra, toda aberta, iconicamente, prestes ao vôo lento como quem se atira ao destino

perceba, não são camisas nem há varal

há no mínimo uma tragédia grega no recinto

são dois seres perdidos desencontrados são os sinais claros de um amor rompido impossível inviável

(o corte à altura do coração não nos deixa outra interpretação: é um sim de um lado e do outro um não, expandir-se e reclusão)

estamos diante duma cena arquetípica: as várias personificações da antiga (e sempre mesma) história trágica: édipo e jocasta romeu e julieta sansão e dalila betsabá e david tristão e isolda dulcinéia e quixote werther e carlota abelardo e heloísa…

duas camisas condenadas a secar separadas numa fotografia

um pequeno drama que se arma nos quintais todo dia.

 
 
 

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