Um salve ao porvir
- 5 de dez. de 2012
- 3 min de leitura

Me delicio ao descobrir novos e fantásticos poetas lutadores… desta vez, descobri um cubano e um bem famoso: Roberto Fernandéz Retamar!! Não sei como não o conheci antes… aqui 4 poesias que traduzi…
UM SALVE AO PORVIR
Não há provas. As provas são que não há provas. Não estavam, não estão, não estarão dadas as condições. Crer porque é absurdo, e cremos. Mais absurdo que crer é ser, e somos. Nada garantirá que seja menos absurdo Não ser e não crer. As chamadas provas ficam pela terra, úmidas relíquias da nau. Se derrumbaram as estátuas enquanto dormíamos. Eram de pedra, de mármore, de bronze. Eram de cinza. E um grito de anatídeos as fez ruir em revoadas.
Não guardar tesouros onde a umidade, os bichinhos os mordisquem. Não guardar tesouros. O tesouro é não guardá-los. O tesouro é crer. O tesouro é ser.
Não existem as façanhas nem os horrores do passado. O presente é mais veloz que a leitura destas mesmas palavras. O poeta saúda as coisas por vir com um salve na noite escura. Só o difícil. Só o escuro. E contra ele, nele, o fogo levantando Sua coluna viva, dourada, real.
O amor é Quem vê.
UM HOMEM E UMA MULHER
Que há de ser um homem e uma mulher? Tirso de Molina
Se um homem e uma mulher atravessam ruas que ninguém vê senão eles, ruas populares que vão dar ao entardecer, ao ar, com um fundo de paisagem nova e antiga mais parecida a uma música que a uma paisagem; se um homem e uma mulher fazem nascer árvores a seu passo, e deixam acesas as paredes, e fazem virar as caras como atraídas por um toque de trombeta ou por um desfile multicor de saltimbancos; se quando um homem e uma mulher atravessam se detém a conversa do bairro, param as cadeiras de balanço sobre a calçada, caem os chaveiros nas esquinas, as respirações fatigadas se fazem suspiros: será por que o amor cruza tão poucas vezes que vê-lo é motivo de estranheza, de sobressalto, de assombro, de nostalgia, como ouvir falar um idioma que acaso alguma vez já se soube e do qual apenas restam nas bocas murmúrios e ruínas de murmúrios?
FELIZES OS NORMAIS
Felizes os normais, esses seres estranhos Os que não tiveram mãe louca, um pai alcoólatra, um filho delinqüente. Casa em lugar nenhum, uma doença desconhecida, os que não foram reduzidos a cinzas por un amor devorante, os que viveram os dezessete rostos da alegria e um pouco mais. Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus, os satisfeitos, os gordos, os lindos, os rintintin e seus seqüazes, os que “como não, por aqui”, os que ganham, os que são queridos até o punho, os flautistas acompanhados por ratos, os vendedores e seus compradores os cavalheiros ligeiramente sobre-humanos os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos, os delicados, os sensatos, os finos os amáveis, os doces, os comíveis e os bebíveis. Felizes as aves, o estrume, as pedras.
Mas que dêem passagem aos que fazem os mundos e os sonhos, as ilusões, as sinfonias, as palavras que nos destróem e nos constróem,os mais loucos que suas mães, mais bêbados que seus pais e mais delinqüentes que seus filhos e mais devorados por amores calcinantes. Que a eles seja dado seu lugar no inferno, e basta.
O OUTRO
Nós, os sobreviventes, A quem devemos a sobrevida? Quem morreu por mim no calabouço, quem recebeu a minha bala, a que era para mim em seu coração? Sobre qual morto estou eu vivo, Seus ossos permanecendo nos meus, os olhos que lhe arrancaram, vendo pelo olhar de minha cara, e a mão que não é sua mão, que também já não é a minha, escrevendo palavras rotas Onde ele não está, na sobrevida?



Comentários