Um painosso latinoamericano
- Trunca Edicoes

- 5 de jan. de 2014
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UM PAINOSSO LATINOAMERICANO (Mario Benedetti, Uruguai, 1920-2009)
Pai nosso que estais nos céus com as andorinhas e os mísseis quero que volte antes que se esqueça como se chega ao sul do Rio Grande Pai nosso que estais no exílio quase nunca te lembras dos meus de todo modo onde quer que estejas santificado seja teu nome não quem santificam em teu nome fechando um olho para não ver as unhas sujas da miséria em agosto de mil novecentos e sessenta já não serve te pedir venha a nós o teu reino porque teu reino também está aqui embaixo metido nos rancores e no medo nas vacilações e na sujeira na desilusão e na modorra nesta ânsia de te ver apesar de tudo quando falaste do rico da agulha e do camelo e votamos todos em você por unanimidade para a Glória também alçou sua mão o índio silencioso que te respetaiva mas resistia a pensar seja feita tua vontade no entanto uma vez a cada tanto tua vontade se mistura com a minha a domina a acende a duplica mais árduo é conhecer qual é minha vontade quando creio de verdade no que digo crer assim em tua onipresença como em minha solidão asim na terra como no céu sempre estarei mais seguro da terra que piso que do céu intratável que me ignora mas quem sabe não vou decidir que teu poder se faça ou se desfaça tua vontade igual se está fazendo no vento nos Andes de neve no pássaro que fecunda a pássara nos chanceleres que murmuram yes sir em cada mão que se converte em punho claro não estou seguro se me agrada o estilo que tua vontade escolhe para fazer-se isso digo com irreverência e gratidão dois emblemas que logo serão a mesma coisa isso digo sobretudo pensando no pão nosso de cada dia e de cada pedacinho de dia ontem nos tomaste nos dê hoje ou ao menos o direito de nos darmos nosso pão não somente o que era símbolo de Algo mas o de miolo e casca o pão nosso já que nos sobra poucas esperanças e dúvidas perdoa se podes nossas dúvidas mas não nos perdoe a esperança não nos perdoe nunca nossos créditos o mais tardar amanhã saldemos a cobrar os fajutos tangíveis e sorridentes foragidos aos que têm “garras para a arpa” e um panamericano temor com que se enxugam a última cuspida que escorre de seu rosto pouco importa que nossos credores perdoem assim como nós uma vez por erro perdoamos a nossos devedores todavia nos devem como um século de insônias e porrete como três mil kilometros de injúrias como vinte medalhas a Somoza como uma só Guatemala morta não nos deixe cair na tentação de esquecer ou vender este passado ou arrendar um só hectar de seu esquecimento agora que é a hora de saber quem somos e vão cruzar o rio o dólar e seu amor contra-reembolso nos arranque da alma o último mendigo e nos livre de todo mal de consciência amém.
(Tradução de Jeff Vasques | Mais poesias de Benedetti aqui: http://eupassarin.wordpress.com/tag/mario-benedetti/)



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