Apresentação "És fardo ou farda"
- Trunca Edicoes

- 20 de out. de 2021
- 2 min de leitura
Atualizado: 25 de out. de 2021

APRESENTAÇÃO
A realidade é cada vez mais devastadora e surreal. O enorme grau de exploração privada dos recursos humanos e naturais concentra toda nossa riqueza em pouquíssimas mãos,
gerando miséria, material e espiritual, generalizada. A vida é, hoje, monopólio de poucos. Essa vida devida, desvida, que compramos à prestação nesse consórcio mítico. A barbárie já
está entre nós, nos envenena à mesa, nos educa seus cabrestos, grita nas igrejas, nos estende a mão em desespero, é eleita pelo medo, nos governa como ovelhas, nos cumprimenta nos espelhos. Aqueles que não sofrem diretamente as consequências da brutal democratura em que vivemos (a tortura e o massacre do povo pobre, negro, indígena, das mulheres e travestis) vão sendo aos poucos destroçados internamente, isolados, fragmentados,
esvaziados de qualquer sentido, desesperançados, dessensibilizados. E, assim, vagamos como vultos, mortosvivos, seguindo nesse nada comum dia após o outro, mal percebendo que estamos metidos no meio de um campo de batalha, em que o Estado é o quartel general do inimigo.
Em tempos de guerra, és fardo, ou farda. Que a arte, que a poesia não bata continências. É preciso provocar as mentes e corações embotados pela sequência massacrante de atrocidades, evidentes nas manchetes absurdas e sangrentas que nem mais nos assombram ou comovem. Que a poesia ainda possa entoar a humanidade possível, a alegria possível,
o amor possível em meio a tanta impossibilidade. Tinha um caminho no meio das pedras. No meio das pedras, tinha um caminho.
Este livro é, em grande medida, feito de crônicas poéticas acerca de acontecimentos marcantes desses últimos 3 anos... período de intensas e violentas movimentações, por mais
que à superfície, muitas vezes, tudo pareça parado, todos pareçam conformados. Mas as placas tectônicas estão se movendo, um ciclo político está se fechando. Os tremores
sísmicos já começam a vibrar o coração da classe... é tempo de construir, pacientemente, caminhos e meios para que essa lava em fúria possa chegar à superfície, chegar às ruas...
e não, como no último período, só às urnas. A farsa institucionalizada no patético direito de voto vai, cada vez mais, perdendo carne e ilusão, e expondo seu riso cadavérico. Só a luta - pralém do Estado - transforma a vida!
Este é um livro pesado, que carrega a voz de seus mortos... cláudias, amarildos, eduardos, castros, marianas... E assim é, porque assim foi este último período, que levou direitos,
nossa dignidade, levou tantos lutadores e lutadoras, levou amig@s, como meu doce poeta Rodrigo, levou meu querido irmão, Gilson. Luto em luta. Vemos crescer um muro imenso
entre nossos olhos e nossas mãos. Mas a vida sempre busca, diante do impossível, seus caminhos para seguir, impassível... findas as esperanças, as mãos se encontrarão, único rumo... quando nada mais se espera, é tempo de agir... hasteando nossas tristezas, vamos reencontrando nos céus nossos olhares, nossas bandeiras... a morte sempre sempre semeia...
saibamos colher a sorte de uma vida coletiva, rebelde, e inteira.
Jeff Vasques (agosto/2017)



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