Tenho - Nicolás Guillén
- Trunca Edicoes

- 22 de set. de 2022
- 2 min de leitura

Tenho
(Nicolás Guillén, Cuba, trad. Jeff Vasques)
Tenho
Quando me vejo e toco
eu, ontem apenas um João sem Nada,
e hoje João com Tudo,
e hoje com tudo,
passo os olhos, observo,
me vejo e toco
e me pergunto como pôde ser.
Tenho, vamos ver,
tenho o prazer de andar por meu país,
dono de tudo que há nele,
olhando bem de perto o que antes
não tive nem podia ter.
Colheita posso dizer,
monte posso dizer,
cidade posso dizer
exército dizer,
já meus para sempre e teus, nossos,
e um amplo brilho
de raio, estrela, flor.
Tenho, vamos ver,
tenho o prazer de ir
eu, camponês, operário, gente simples,
tenho o prazer de ir
(é um exemplo)
a um banco e falar com o administrador,
não em inglês,
não em senhor,
mas sim dizer-lhe companheiro
como se diz em espanhol.
Tenho, vamos ver,
que sendo eu um negro
ninguém pode me deter
na porta de uma danceteria ou de um bar.
Ou então na recepção de um hotel
gritar que não há quarto,
um mínimo quarto e não um quarto colossal,
um pequeno quarto onde eu possa descansar.
Tenho, vamos ver,
que não há guarda rural
que me pegue e me prenda num quartel,
nem me arranque e me expulse da minha terra
no meio do caminho real.
Tenho que como tenho a terra tenho o mar,
não country
não railáif[1]
não tênis e não iate,
mas sim de praia em praia e onda em onda,
gigante azul aberto democrático:
enfim, o mar.
Tenho, vamos ver,
que já aprendi a ler,
a contar,
tenho que já aprendi a escrever
e a pensar
e a rir.
Tenho que já tenho
onde trabalhar
e ganhar
o que tenho que comer.
Tenho, vamos ver,
tenho o que eu tinha que ter.
[1] No original, jailáif. Trata-se de uma forma adaptada ao espanhol de dizer o termo inglês “high life” (alta sociedade). Optou-se por railáif para ficar mais próximo da sonoridade no português.
* “camiño real” era o nome dado às ruas da Cuba monárquica ou ainda das grandes ruas.
(Tradução coletivo Trunca)



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