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Roque Dalton II

  • 14 de mar. de 2010
  • 3 min de leitura

Algumas novas tra(b)duções do poeta guerrilheiro Dalton e um trechinho de Cortázar falando sobre ele.

“Falar com Roque era como viver mais intensamente, como viver por dois. Nenhum de seus amigos esquecerá as histórias acaso míticas de seus antepassados, a visão prodigiosa do pirata Dalton, as aventuras dos membros de sua família; e outras vezes, sem maior desejo mas obrigado pela necessidde de defender um ponto de vista, a lembrança das prisões, a morte o cercando, a fuga à alvorada, os exílios, as voltas, a saga pelo continente, a larga marcha do militante.” Julio Cortázar

Conselho que não é mais necessário em nenhuma parte do mundo, mas que em El Salvador…

Não esqueça nunca que os menos fascistas dentre os fascistas também são fascistas.

Encontro com um velho poeta

Ontem acabei topando cara a cara com o homem que antes que ninguém aplaudiu minha poesia. Ele foi o responsável por meus versos encontrarem o leito dos periódicos e dos editoriais e por começarem a falar deles de forma que parecia necessitar uma iniciação. Ontem vim a topar cara a cara com ele bem perto dos mercados pestilentos (suponho que ele deixava sua oficina e ia pra casa). Eu vinha sorrindo pra mim mesmo porque uns minutos antes tudo havia saído bem e não houve necessidade pra nós de usar as armas. Ele empalideceu debaixo da luz roxa do néon (uma proeza) e buscou a outra calçada como quem repentinamente tem sede.

Descobrimento de Guernica

O toro impávido ante à língua dos mortos a morte derramada debaixo dos cascos implacáveis a impiedade do cavalo entre a dor e as lâmpadas e o amor meu por um sonho deslumbrado de pronto pelo remorso.


As novas escolas

Na Grécia antiga Aristóteles ensinava filosofia a seus discípulos enquanto caminhava por um grande pátio. Por isso sua escola se chamava “de os peripatéticos”. Os poetas combatentes somos mais peripatéticos que aqueles peripatéticos de Aristóteles porque aprendemos a filosofia e a poesia do povo, enquanto caminhamos pelas cidades e pelas montanhas de nosso país.

América Latina

O poeta cara a cara com a lua fuma sua margarida emocionante bebe sua dose de palavras alheias voa com seus pinceis de orvalho arranha seu violãozinho pederesta

até que destroce o focinho no áspero muro de um quartel.


Não, nem sempre fui tão feio

O que se passa é que tenho uma fratura no nariz que me causou o porto-riquenho Lizano com um tijolo porque eu dizia que evidentemente era pênalti e ele que não e que não e que não nunca em minha vida voltarei a dar as costas a um jogador porto-riquenho o padre Acherandio por pouco não morreu de susto já que ao final havia mais sangue do que num altar asteca e logo foi Quique Soler que me deu no olho direito a pedrada mais certeira que cabe imaginar claro que se tratava de reproduzir a tomada de Okinawa mas me causou ruptura da retina um mês de imobilização absoluta (aos onze anos!) visita ao doutor Quevedo na Guatemala e ao doutor Bidford que usava uma peruca vermelha por isso é que em ocasiões vesgueio e que ao sair do cinema pareço um drogado a outra razão foi uma garrafada de rum que me lançou o marido de Maria Elena na realidade eu não tinha nenhuma má intenção mas cada marido é um mundo e se pensamos que ele acreditava que eu era um diplomata argentino tem-se que dar graças a deus a outra vez foi em Praga nunca se soube me pisotearam quatro delinqüentes em um beco escuro à duas quadras do Ministério da Defesa à quatro quadras das oficinas da Seguridade era véspera da abertura do Congresso do Partido pelo que alguém disse que era uma demonstração contra o Congresso (no hospital encontrei outros dois delegados que haviam saído de seus respectivos assaltos com mais ossos quebrados que nunca) outra opinião que foi um assunto da CIA para cobrar minha escapada do cárcere outros ainda que foi uma amostra do racismo anti-latinoamericano e alguns que eram simplesmente as universais ganas de roubar o camarada Sóbolev veio me perguntar se não era que eu tinha tocado o cu de alguma senhora acompanhada antes de protestar no Ministério do Interior em nome do Partido Soviético finalmente não apareceu nenhuma pista e há que dar graças a deus novamente por haver continuado como vítima até o final numa investigação na terra de Kafka em todo caso (e para o que me interessa sustentar aqui) os resultados foram dupla fratura no maxilar inferior comoção cerebral grave um mês e meio de hospital e dois meses mais engulindo até os bifes liquefeitos e a última vez foi em Cuba foi quando descia uma ladeira embaixo da chuva com uma M-52 entre as mãos e numa dessas saiu não sei de onde um touro eu enrosquei minhas canelas no mato e comecei a cair o touro passou sem me notar mas como era um grande reprodutor não quis voltar para me furar mas de toda forma não foi necessário porque como lhes havia contado eu caí em cima da arma que não soube fazer outra coisa senão ricochetear como uma revolução na África e me partiu em três pedaços o arco zigomático (muito importante para a resolução estética do rosto).

Isso explica pelo menos em parte meu problema.


 
 
 

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