Rodrigo
- Trunca Edicoes

- 14 de dez. de 2014
- 2 min de leitura

RODRIGO
já já deve chegar uma mensagem tua no celular “jeff, ta por aqui?” ou vou perceber uma chamada não-atendida… (vc sabe, eu sempre enrolado com celular)
esperando aquele teu email pra gente combinar a próxima aula… essa desculpa esfarrapada pra gente se ver e falar (que – no trompete – vc já sacou que eu não avanço nada…)
daqui a pouco o cassio marca mais um ensaio pra eu ouvir tua voz mansa teu sorriso de canto de boca – envergonhado – ou ver teus olhos se fechando – tão doces – ao soprar todo teu coração triturado em nossos ouvidos
to aqui te esperando no horário combinado pra gente trocar a roupa pintar juntos o rosto ali mesmo no centro de convivência – ou no banheiro dum supermercado – você-pierrot e eu-arlequim livres noite adentro – desmascarados! – dançando com os bêbados e desesperados fazendo serenatas às colombinas (que esperam cansadas o último ônibus da linha) você me ensinando a coragem eu te ensinando a companhia dois bobos rindo do mundo, dessa máquina… esse riso inútil e necessário…
bora organizar qualquer qualquer coisa pra você declamar algum poema e mostrar pras pessoas que a vida ainda respira e que você incandesce as palavras que você queima
e no natal rola de novo a gente varar vendo filme na sala nessa cumplicidade solitária quase sem palavras
fala mais do Chet pra mim de como teu café é pão e jazz de como a música é silêncio fala mais do seu filho da tua alegria de ver ele descobrindo o violão da autonomia que vc vai incentivando no menino
sei lá, fala do teu coração partido ou do partido rachado da militância da raiva dos correios das greves do sindicato de todas as cartas que não foram entregues
ou então vem e fala alguma bobeira se diminuindo – como você não ser artista, poeta – só pra gente ter raiva…
ou então não fala nada
não fala
teu silêncio, teu sopro anuncia…
sei lá, to aqui, feito criança, meu amigo, me enganando com este poema
– que outra coisa a gente sabe fazer? –
tentando fingir “tão completamente”…
fingindo que é esperança a esperança que eu sinto mesmo
de te encontrar
a qualquer hora em qualquer lugar
eu-você andando por aí
meus olhos – como os teus – crentes.



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