top of page

recado para colar no espelho

RECADO PARA COLAR NO ESPELHO

Você não é especial, amigo.

Te digo isso com o carinho – e com a corriqueira indiferença – de quem diz “saúde!” a um espirro.

Você não é especial.

Melhor que te diga isso esta voz tranquila dum poema que nutre tua solidão clandestina (em que – oh, tão único! – só você se imagina.)

Menos, querido, menos. Três passos atrás e tua imagem já se embaça no espelho.

Insisto, você não é especial… Vocês todos não são.

Haverá, talvez, em ti, agora, um riso irônico, uma descrença, ou licença que te proteja de perceber que outros – como você – lêem este poema com risos igualmente irônicos, similar licença ou descrença.

Sim, é compreensÌvel…

Todos, – absolutamente tudo e todos – te enganaram desde o início: te fizeram crer que você era único e, oh, insubstituível.

(o mercado, com seu olhar cínico de currículos, sabe bem mais de você e de teu trato… oh, trabalho humano abstrato)

Você não é especial…

Tua mãe, pequeno, te enganou. Teu professor do primário te enganou. Tuas namoradas, – uma a uma – te enganaram. (E fechaste os olhos quando tentaram te mostrar teu humano e comum fracasso!)

Os comercias de TV, os shampoos pra teu especial tipo de cabelo, o teu gerente no banco, os cartões de crédito, a puta, o psicanalista, o padre, o médico, todos te enganaram…

Você mesmo, todo dia, ergue seu castelo kitsch de qualidades raras no espelho, no trabalho, no social das redes, no chuveiro enquanto repassa solitário (com trilha de fundo) tua história – oh, tão própria! – de acertos e fracassos (como milhares agora mesmo o fazem).

Assim, tão especialmente educado, é normal que, de início, não aceite… Todos, – e você não seria diferente – negam, a princípio, os fatos… mas seu corpo os conhece e vão repetidamente te sussurrando à hora de dormir: você não é especial! você não é diferente!

Aquela paixão tão ardente nos olhos dela? Brilhará novamente – tão ou mais ardente – sem seus olhos.

Aquele jeito próprio de gemer teu nome, ou a fúria com que mordia tua pele, o gozo conjunto pralém da morte? Se repetirão indefinidas vezes – mais ou menos intensamente – com tantos outros “especiais” igualmente.

E as palavras que ela – ou ele – lhe disse num certo momento sublime… novamente as dirá com mesmo frescor – sublimente – a quem for.

Você não é especial. Aceite.

E o que te faria? Mais conhecimento? Mais beleza? Coragem? Consciência? Mais dinheiro? Paz? Tua tristeza? Teu jeito excêntrico de fazer algo comum? Teu desespero diante da morte e do sem sentido? Tua revolucionária utopia? Poesia?

Venha, querido, me abrace.. aceite.. relaxe…

Você não é especial.

Se desfaça dessa inútil e pesada couraça…

retire a coroa de louros…

(só te atrapalha…)

Venha, junte-se a todos…

você não é especial…

a vida é.

 
 
 

1 comentário


Noemi Amaral de Andrade
Noemi Amaral de Andrade
11 de mai. de 2024

Leio mais de uma vez...toca muito em mim.

Curtir
bottom of page