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Poesia angolana de revolta

  • 21 de mai. de 2011
  • 3 min de leitura


Chegou hoje outro livro que encomendei via Estante Virtual, uma antologia de poesia angolana de revolta organizada em Portugal. Angola é o segundo maior produtor de petróleo da África mas um de seus países mais miseráveis e com um longo histórico de dominação estrangeira. Do primeiro contato rápido com a antologia segue abaixo 4 poesias que selecionei. Observação: há vários termos angolanos que, aparentemente, são compartilhados pelo português de Portugal e portanto não são explicados no livro, o que dificulta um pouco o entendimento geral, mas não o impede.

IDENTIDADE (Eduardo Brazão Filho)

Tinha tanga e cubata. Tinha sambo noutro tempo.

Noutro tempo tinha a mata Livre de andar. Tinha batuque, muxique e as anharas para caçar.

E de repente no entrechoque do tempo lhe encontrei aí, na estrada.

Tinha calça e no bolso roto, bilhete de identidade mais nada.

POEMA (Maria José Abranches)

Senhora zangou porque na festa a negra Joana entrou. Essa negra danada que mexe e remexe e dá o seu corpo no branco que o quer. Senhora zangou e Joana se riu… Mas dentro do peito da Joana vadia entrou uma coisa… Talvez cazumbi*… Que deu força nela. E ela gritou: “VADIA ME FEZ, O HOMEM QUE É TEU COM AQUELE DINHEIRO QUE ROUBA NA GENTE…” E senhora zangou Joana sorriu sorriu e chorou.

* cazumbi: feitiço

POEMA DE ALIENAÇÃO (Antonio Jacinto)

Não é este ainda o meu poema o poema da minha alma e do meu sangue não eu ainda não sei nem posso escrever o meu poema o grande poema que sinto já circular em mim

O meu poema anda por aí vadio no mato ou na cidade na voz do vento no marulhar do mar no Gesto e no Ser.

O meu poema anda por aí afora envolto em panos garridos vendendo-se vendendo “ma limonje ma limonjééé”

O meu poema corre nas ruas com um quibalo podre à cabeça oferecendo-se oferecendo “carapau sardinha matona ji ferrera ji ferrerééé…”

O meu poema calcurreia ruas “olha a probíncia” “diááário” e nenhum jornal traz ainda o meu poema

O meu poema entra nos cafés “amanhã anda à roda amanhã anda à roda” e a roda do meu poema gira que gira volta que volta “amanhã anda à roda amanhã anda à roda”

O meu poema vem do musseque ao sábado traz a roupa à segunda leva a roupa ao sábado entrega a roupa e entrega-se à segunda entrega-se e leva a roupa

O meu poema está na aflição da filha da lavadeira esquiva no quarto fechada do patrão nuinho a passear a fazer apetite a querer violar

O meu poema é quitata no musseque à porta caída duma cubata “remexe remexe paga dinheiro vem dormir comigo”

O meu poema joga a bola despreocupado no grupo onde todo o mundo é criado e grita “obeçaite golo golo”

O meu poema é contratado anda nos cafezais a trabalhar o contrato é um fardo que custa a carregar “monangambééé”

O meu poema anda descalço na rua

O meu poema carrega sacos no porto enche porões esvazia porões e arranja forças cantando “tué tué tué trr arrimbum puim puim”

O meu poema vai nas cordas encontrou cipaio tinha imposto, o patrão esqueceu assinar o cartão

vai na estrada cabelo cortado “cabeça raspada galinha assada ó Zé”

picareta que pesa chicote que canta

O meu poema anda na praça trabalha na cozinha vai à oficina enche a taberna e a cadeia é pobre roto e sujo vive na noite da ignorância O meu poema nada sabe de si nem sabe pedir O meu poema foi feito para se dar para se entregar sem nada exigir

Mas o meu poema não é fatalista o meu poema é um poema que já quer e já sabe o meu poema sou eu-branco montado em mim-preto a cavalgar pela vida.

MONANGAMBA* (Antonio Jacinto)

Naquela roça grande não tem chuva é o suor do meu rosto que rega as plantações.

Naquela roça grande tem café maduro e aquele vermelho-cereja são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado, pisado, torturado, vai ficar negro, negro da cor do contratado.

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam, aos regatos de algre serpentear e ao vento forte do sertão: Quem se levanta cedo? Quem vai à tonga? quem traz pela estrada longa a tipóia ou o cacho de dendém? Quem capina e em paga recebe desdém fubá podre, peixe podre, panos ruins, cinquenta angolares “porrada se refilares”?

Quem?

Quem faz o milho crescer e os laranjais florescer – Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar máquinas, carros, senhoras e cabeças de preto para os motores?

Quem faz o branco prosperar, ter barriga grande – ter dinheiro? – Quem?

E as aves que cantam, os regatos de alegre serpentear e o vento forte do sertão responderão:

-“Monangambééé…”

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras deixem-me beber maruvo, maruvo e esquecer diluído nas minhas bebedeiras

“Monangambééé…”

* Monangamba: servente, contratado

 
 
 

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