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Pedro Tierra (Hamilton Pereira)

  • 14 de set. de 2010
  • 3 min de leitura


[…] Porque sou o poeta dos mortos assassinados, dos eletrocutados, dos “suicidas”, dos “enforcados” e “atropelados”, dos que “tentaram fugir”, dos enlouquecidos.

[…]

meu ofício sobre a terra é ressuscitar os mortos e apontar a cara dos assassinos. […]” (Poema-prólogo, Pedro Tierra)

Graças a generosidade de uma amiga-camarada que, diante do meu insistente clamor, me emprestou seu recém comprado “Poemas do povo da noite”, estou podendo conhecer a poesia de Pedro Tierra. 🙂

Pedro Tierra foi preso pela ditadura em 72 acusado de “subversão” por sua ação junto à ALN (Ação Libertadora Nacional). Foi apenas libertado em 77, após passar por diversas prisões e por longos períodos de tortura. Foi através da poesia que Tierra conseguiu manter sua humanidade nos porões da ditadura:

“Era, então, a maneira de poder me olhar no espelho sem enlouquecer.”

Seus poemas descrevem sua resistência, sua luta pela vida nos calabouços, superando a tortura física e a tristeza de acompanhar o assassinato de diversos companheir@s (grande parte dos poemas são dedicados a companheiros e companheiras de cela e prisão assassinados.) Para escrever na cadeia teve que roubar lápis dos torturadores e escrever com letra miúda no papel dos maços de cigarro. De início, mandava seus poemas na cartas, mas estes eram interceptados pela censura. Passou então a utilizar um subterfúgio: escrevia dizendo que adorava muito as poesias de um poeta latino-americano chamado Pedro Tierra do qual transcrevia poemas selecionados (que eram seus próprios… na verdade, seu verdadeiro nome é Hamilton Pereira… mas, desde então, Pedro Tierra passou a ser seu pseudônimo). Mas, a maior parte de suas poesias saíam mesmo escondidas dentro de canetas bic. Uma primeira edição mimeografada, com prefácio do padre e poeta Dom. Pedro Casaldáliga, rodou clandestinamente o Brasil com Hamilton ainda preso e foi se tornando símbolo da luta pela anistia. “Poemas do povo da noite” recebeu, em 78, menção honrosa no prêmio Casa das Américas, de Cuba, e seguiu ganhando fama internacional sendo traduzida para diversas línguas.

Hamilton Pereira, ou Pedro Tierra, continua escrevendo e é militante do PT.

“Será que alguém já publicou nestes dez últimos anos de poesia e de noite, no Brasil, um livro de poemas mais verdadeiros, versos mais comprometidos com a vida, com a morte, com o Povo?” Dom Pedro Casaldáliga

Abaixo alguns poemas que me atraíram numa primeira aproximação:

HÁ UM LUGAR NA BARRICADA

Quando o povo bater à porta, não te encontre com as mãos vazias.

Confere as coisas embaladas: não se permitem dúvidas nas bagagens de guerra.

Se entre os companheiros ainda há quem pergunte a razão dos poetas,

encontra, primeiro, teu lugar na barricada, depois, entre os combatentes, aponta

o rosto enérgico de tua poesia.

TECENDO O CANTO

“… Hemos sembrado la tierra con muertos que sin duda florecerán…” Alberto Szpunberg

Recolho no ar teu verso claro à maneira dos cantadores do meu país.

Hoje, silenciosa, a terra trabalha seus mortos como quem nutre sementes de luz.

Possa algum perseguido, encerrado nos calabouços da América

alcançar meu verso humilde e comporemos o vasto coro dos oprimidos.

Não importa que hoje nos tremam os lábios e a voz caminhe incerta pela garganta,

se amanhã o canto romperá na boca de milhões.

Recolho entre as mãos teu verso como o fuzil do companheiro tombado.

Não importa que o corpo de cada morto plantado tarde a florescer.

DOMINGO

Um dia silencioso. Um desses dias frios, de mortal tristeza, o gesto de ódio fechado nos armários.

Um dia sem tortura normal dos dias comuns. No ar apenas a tensão palpável dos seres sem defesa.

Um dia rigorosamente inútil. Mas vem agora essa cantiga. Uma vozinha miúda, vinda não sei de onde,

e é como se todos a esperássemos. Sabe tornar maior ainda o silêncio: aqui um ato de amor é sempre um desafio.

Como reconforta ouvir a voz dessa menina sem nome. Saber que resiste o brilho de seus olhos iluminando a noite,

enquanto outras estrelas se reúnem buscando nova luz. Saber que a critatura humana resiste. Saber que vencemos a última batalha.

OS MATERIAIS

Eu quis a palavra reta feito faca.

Eu fiz do verso o corte branco do metal.

O lento sal dos anos não lhe roube o fio.

O inimigo não possa empunhá-lo durante a luta.

Se o carrasco, algum dia, levar aos lábios meu poema,

o vidro claro do verso lhe corte a boca.

E a palavra não se renda à tortura.

E quando eu disser: pedra, não se entenda pão.

Quando eu disser: noite, se encontre nela todo poder de treva.

Quando eu disser: eis o inimigo, mate-o antes do amanhecer.

E ME INTERROGO…

Chego ao final do poema e me pergunto estará aí o material proposto?

Reconheço, o suor do corpo talvez tenha roído o fio do material.

Terei garantido o corte do verso? Ou se perdeu a palavra numa rede de lamentos?

Teus versos têm a mesma roupagem, dirão. Certamente, responderei, como os soldados em marcha.

Possa meu poema acender em cada um alguma coisa além das fogueiras que iluminam a frente de batalha…


 
 
 

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