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Passarin avoando…

  • 23 de dez. de 2012
  • 4 min de leitura


Querid@s, o Passarin vai ficar parado por um tempinho (ou melhor, parado aqui, avoando alhures!)… estarei viajando por Nuestra América, buscando a poesia dos lutadores, fazendo cursos de clown e, nas horas vagas, me perseguindo nas esquinas dos olhos dos outros… Talvez consiga postar uma coisa ou outra nesse período. Garantido que volto a publicar regularmente em março. Boas festas a todos! E que 2013 seja ano de muitas lutas íntimas e sociais! Segue um poema fresquin e um outro, do meu primeiro livro, sobre o fim de ano 😉 Obrigado a todos que dialogam comigo aqui no Passarin!

distância entre pergunta e resposta

quanto amor ha no amor? qual o fundo do fim? quando fende o futuro? quanto mede o presente? quanto medo? quanto de morte no suspiro? quanto de vida no gozo?

até quando nos despedimos das despedidas? o que é volta? o que é ida?

o que finda? o que fica? o que finca?

nada pode o olvido, drummond?

quando a esperança amargura? quando a amargura se esperança?

quantos passos juntos do seu? quantos cílios longe? quantos lírios? quantos fílios longe? quantas pedras no caminho? quanto caminho por entre pedras? quantos horizontes no olhar? quanto olhar para ver? quanto perder para achar? quanto ser? ou não ser?

qual a melhor morte? qual a vida que o valha?

quantos beijos até você? e quem? é? você?

quantos não somos? e tantos que fomos? seremos como? quantos de nós iguais a tantos outros de nós mesmos?

quando nos veremos novos de novo?

quantas mãos na minha até trair a solidão? quantas mãos minhas no sim? e no não? quanto rasgar de peito e meter-se dentro? quanto rasgar-se dentro e meter o peito?

quantos olhos por meus olhos? quantos bocas por minha boca? quantas palavras realmente minhas? quantas outras?

quanto “te amo” dito sem olhos? quanto “te amo” dito sem peito? quanto “te amo” dito sem corpo? quanto “te amo” vagando sozinho por entre ruas, olhares de ninho?

quanto “te amo” sem palavras? sentido?

e quando não mais “te amo”? por que? como? quando?

(colecionei sonhos nas chuvas da infância e cheguei a ilha de vê-los agora preparo barco de sermos…)

quantas vezes se perguntar? quantas mais vezes se responder?

e quando e como será? o novo? e quanto tanto? muito? pouco? o mesmo? tão pouco? quando? quão? e com quem? como? e felizes seremos? até quando? quanto adeus dentro das mãos? e mesmo assim, e por quê não? e por quê sim? e por quê tão? e por quê fim? e por quê não?

enfim…

o que se perde

e

o que se ganha

nada nunca

te mos trará

o fiel

dessa balança

anda!

Bissextos

Bissextos

I. tô tentanto, agora mesmo, explicar pro meu peito que o ano acabou

me olho no espelho que reflete meu rosto do mesmíssimo jeito feito nos dez minutos anteriores

me olho nos olhos bem no meio do sombrio dos olhos – lá onde sei que por trás dos tocos ainda se escondem rastejantes 2006, 2005, 2003 e até 1997 – lá onde a água é parada e a cor não é das melhores.

Me olho nos olhos e é como se todos que conheço me olhassem de volta apreensivos. Os ignoro e estico um sorriso orgulhoso das vitórias do ano – bem a la feliz 2008! – o que faz rir todos os ogros que habitam minhas dobras.

Desarmo o sorriso. (me sinto melhor assim e mais charmoso, assim como um homem manco é mais charmoso).

Nada mudou e pronto.

Mas, lá fora e acima e adentro os rojões explodem meus argumentos.

o céu se enche de violetas, gozos, incandescências!

Mas meu olhar treinado no despropósito vê, apenas, ao longe a estrela da vida inteira que humilde tremeluja fria no espaço turvo da meia-noite (sem nem se dar conta que mais um ano se passou e que eu, agora, já tenho trinta.)

Posso ouvir a algazarra dos vizinhos e sua alegria sinceramente desmedida desmedidamente sincera. Sou, talvez, a primeira indiferença ranzinza do bairro (da cidade? da estratosfera?) em 2008.

Agora às 2h36 de 01 de janeiro de 2008 o silêncio vindo das ruas (e de dentro dos olhos górdos de peru) já é o mesmo das 22h45 do dia 31 de dezembro do ano que se passou.

4 horas de um fogo branco queimando o ano os meses dias e noites. Queimando os suores, os medos, os silêncios, os sonhos, a surpresa dos primeiros prazeres, e o enjôo dos beijos sem-amor. Milrastros de pólvora queimando toda a história toda a merda desse peso às costas dessa mão que não sabe o rosto desse coração encravado no peito dessa moeda engasgada na goela

(e que água tão ardente pode saciar a sede de tanta secura nos corpos?) bombas-relógio em contagem regressiva enquanto todos aguardam TRÊS nas salas, DOIS nas cozinhas, UM frente ao mar, o momento de ser feliz de novo…

Pronto! Gritem! Corram! É a zero hora! é a hora sem hora!

A vida toda de um ano queimando-se em apenas 4 horas de (comoventes) artifícios de fogos e esperança.

(Como deve sentir a chegada do “novo” – e com que fogo queima sua história – o motorista que vi passar guiando o ônibus às justas 24 horas e 12 minutos pela frente de minha casa? E que na hora da virada devia passar da segunda para a primeira marcha enquanto se preparava para a lombada e para mais um ano?)

II. Que esperanças resistiriam à insônia?

saber-se sempre o mesmo sem noites, sem sonos, sem fade out algum entre o que foi e o que será…

“a esperança é a última que morre…” mas, antes dela não morreremos todos nós?

Tão novo é o ano quanto mais nos esquecemos do que fomos, e, principalmente, do que não fomos.

Apagar uma a uma as estrelas das trilhas em que não nos arriscamos até deixar este estreito e reto caminho artificialmente iluminado para 2008.

Isso. Bebe champanhes, minha gente. Bebe champanhes! Olha que não há mais metafísica no mundo senão beber champanhes cidra cerezer. Pudesse eu babar champanhes e esquecer com a mesma verdade e prazer…

III. Volto ao espelho, esse insensível. Tento, em vão, me esquecer de algo pra ver se viro o ano, se lhe passo uma rasteira, se num lance mandinguento deixo pra trás definitivamente o peso dos sóis e a abrasão das luas sobre meu dorso.

Metal pesado inflando-se de eclipses.

Mas resiste em mim todos os anos – numa siderurgia cirúrgica – desde milnovecentos e tantos

(tempo fundindo-se ao coração-peito-nuca feito ferro-gusa)

nada trago de novo

de novo nada trago

É que quando nasci, um anjo torto – e filhadaputa – disse:

Vai, Jefferson, vai ser um vinte-e-nove-de-fevereiro na vida!

IV. Raia no canto esquerdo da boca desse que me olha do espelho um risinho qual uma esperança verde-musgo.

Talvez, porque lhe tenha agradado essa infame metáfora do 29 de fevereiro… Talvez, porque ache que este novo ano – o de 2008 – é bissexto.

Eu, que vivo deste outro lado do espelho, faria as contas, para ter certeza, primeiro…


 
 
 

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