top of page

Outras poesias de Juan Gelman

  • 11 de jul. de 2013
  • 2 min de leitura

Poemas que traduzi de Juan Gelman (Argentina).

LIMITES

Quem disse alguma vez: até aqui a sede, até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar, até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor, até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem, até aqui não?

Só a esperança tem os joelhos nítidos. Sangram.

O JOGO EM QUE ANDAMOS

Se me permitissem escolher, eu escolheria esta saúde de saber que estamos muito doentes, esta felicidade de andarmos tão infelizes. Se me permitissem escolher, eu escolheria esta inocência de não ser um inocente, esta pureza em que ando impuro. Se me permitissem escolher, eu escolheria este amor com que odeio, esta esperança que come pãos desesperados. Aqui se passa, senhores, que me juegoaposto a morte.

Confianças

senta-se à mesa e escreve “com este poema não tomarás o poder” diz “com estes versos não farás a revolução” diz “nem com milhares de versos farás a revolução” diz

e mais: esses versos não vão servir para que peões professores lenhadores vivam melhor comam melhor ou ele mesmo coma viva melhor nem para apaixoná-la servirá

não ganhará dinheiro com eles não entrará no cinema grátis com eles não lhe darão roupa por eles não conseguirá tabaco ou vinho por eles

nem papagaios nem cachecóis nem barcos nem touros nem guarda-chuvas conseguirá por eles se contar com eles a chuva o molhará não alcançará perdão ou graça por eles

“com este poema não tomarás o poder” diz “com estes versos não farás a revolução” diz “nem com milhares de versos farás a revolução” diz Senta-se à mesa e escreve

XCI

toda poesia é hostil ao capitalismo pode tornar-se seca e dura mas não porque seja pobre mas para não contribuir com a riqueza oficial

pode ser sua maneira de protestar de tornar-se magra já que há fome amarela de sede e sofrida de pura dor que há pode ser que

ao contrário abra os becos do delírio e as bestas cantem atropelando-se vivas de fúria de calor sem destino pode ser que se negue a si mesma como outra

maneira de vencer a morte assim como se chora nos velórios poetas de hoje poetas deste tempo

nos separaram do rebanho não sei que será de nós conservadores comunistas apolíticos quando aconteça o que vai acontecer mas toda poesia é hostil ao capitalismo.

 
 
 

Comentários


bottom of page