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Os policiais e os guardas

  • 5 de set. de 2016
  • 2 min de leitura

OS POLICIAIS E OS GUARDAS (poeta guerrilheiro Roque Dalton, El Salvador, 1935-1975)

Sempre viram o povo como um montão de costas que corriam pra longe como um campo para deixar cair com ódio os cassetetes.

Sempre viram o povo com o olho de afinar a pontaria e e entre o povo e o olho a mira da pistola ou a do fuzil.

(Um dia eles também foram povo mas com a desculpa da fome e do desemprego aceitaram uma arma um cassetete um soldo mensal para defender os que causam fome e aos que desempregam).

Sempre viram o povo aguentando suando vociferando levantando cartazes levantando os punhos e também dizendo-lhes: “Cachorros filhos da puta o dia de vocês vai chegar!”

(E cada dia que passava eles acreditavam ter feito um grande negócio ao trair o povo do qual nasceram: “O povo é um monte de fracos e sem vergonhas -pensavam- que bem fizemos ao passarmos para o lado dos vivos e dos fortes”).

E então era só apertar o gatilho e as balas iam da margem dos policiais e guardas contra a margem do povo assim iam sempre de lá pra cá e o povo caía sangrando semana após semana ano após ano quebrados seus ossos chorando pelos olhos de mulheres e crianças fugia espantado deixava de ser povo para ser tropel vermelho desaparecia na forma como cada um se salvava para sua casa e logo nada mais só os bombeiros lavando o sangue das ruas.

(Os coronéis acabavam de os convencer: “É isso homens -lhes diziam- duro e na cabeça com os civis fogo com o populacho vocês também são pilares uniformizados da Nação sacerdotes de primeira linha no culto à bandeira ao escudo ao hino aos próceres à democracia representativa ao partido oficial e ao mundo livre cujos sacrifícios não esquecerá a gente decente deste país ainda que hoje não possamos subir vosso soldo como é nosso desejo”).

Sempre viram o povo franzido no quarto das torturas pendurado espancado fraturado inchado asfixiado violado furado com agulhas nos ouvidos e nos olhos eletrocutado afogado em urina e merda cuspido arrastado soltando fumaça em seus últimos restos no inferno da cal viva.

(Quando resultou morto o décimo Guarda Nacional. Morto pelo povo e o quinto rato bem esmagado pela guerrilha urbana os ratos e os Guardas Nacionais começaram a pensar sobre tudo até porque os coronéis já mudavam de tom e a cada fracasso jogavam a culpa aos “elementos da tropa tão moles que temos”).

O fato é que os policiais e os guardas sempre viram o povo de lá pra cá e as balas só caminhavam de lá pra cá.

Que pensem muito… que eles mesmos decidam se é muito tarde pra buscar a margem do povo e disparar dali ombro a ombro junto conosco.

Que pensem muito… mas, enquanto isso, que não se mostrem surpreendidos nem ponham essa cara de ofendidos, hoje, quando algumas balas começam a chegar até eles vindas deste lado de onde segue o mesmo povo de sempre só que a esta altura já estufa o peito e traz cada vez mais fuzis.

(tradução de Jeff Vasques | mais poesias: facebook/eupassarin)

[foto de origem desconhecida]

 
 
 

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