Os leninistas também amam
- 15 de mai. de 2010
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Sim, piada infame… e pra dar conteúdo a ela seguem 3 poemas de Brecht sobre amor e sexo (autor que, pralém de seus fantásticos poemas políticos, possui vários poemas eróticos). Brecht, ao contrário do tímido Cortázar, era um namorador… estava sempre acompanhado e não era incomum que desenvolvesse algumas relações concomitantes. Mas, segundo Konder (em “A poesia de Brecht e a história”), apesar da grande quantidade de amantes, Brecht possuía grande dificuldade para se envolver por inteiro nas relações.
Abaixo segue minha tra(b)dução da “Canção do sim e do não” do espanhol (comecei a traduzir do alemão, mas, como ainda sou um chucrutz nessa língua, desisti, demoraria muito). Talvez você ache que essa “Canção do sim e do não” se pareça com a letra de “Terezinha” de Chico Buarque (vídeo da música também abaixo)… e não é mera coincidência: “Terezinha” faz parte da “Ópera do malandro” que Chico elaborou inspirado na “Ópera dos 3 vinténs” de Brecht (onde consta a “canção do sim e do não”). Seguem mais dois poemas De Bertolt, um “erótico-herege”, e outro lindo, lindo, lindo sobre sua primeira namorada, Marie. No final, um brinde, uma curiosidade (como já é hábito aqui): Nina Simone cantando “Jenny e os piratas”, canção também da “Ópera dos 3 Vinténs” e que influenciou Chico na criação da famosa “Geni” da ópera do malandro (essa canção de Brecht também influenciou o argumento do filme “Dogville” de Lars Von Trier… lembram do final? Grace é a Geni, só que não salva a cidade, como na versão “light” do Chico, manda fuzilar todos!). Escutem e vejam as semelhanças!
Brecht e Kurt Weil, criadores da “Ópera dos 3 Vinténs”, que revolucionaram o genêro operístico ao trabalharem com personagens costumeiramente repudiados: prostitutas, ladrões, vigaristas etc.
1. CANÇÃO DO SIM E DO NÃO (Ópera dos 3 Vinténs – Brecht)
1. Houve um tempo em que acreditava, quando ainda era inocente, e o fui já faz tempo igual a você: quiçá também alguém se chegue a mim e então tenho que saber o que fazer. E se tem dinheiro e se é amável e seu colarinho está limpo também de segunda a sexta e se sabe o que merece uma senhora então direi “Não”. Há que se manter a cabeça bem alta e ficar assim como se não se passara nada. Certo que a lua brilhou toda a noite, certo que a barca se desatou da margem, mas nada mais pôde acontecer. Sim, não se pode entregar-se simplesmente, sim, há que ser fria e sem coração. Sim, tantas coisas poderiam acontecer, ai, a única resposta possível: Não.
2. O primeiro que veio foi um homem de Kent que era como um homem deve ser. O segundo tinha três barcos no porto e o terceiro estava louco por mim. E ao possuir dinheiro e ao ser amável e ao levar os colarinhos limpos inclusive de segunda a sexta e ao saber o que merece uma senhora, lhes disse a todos: “Não”. Mantive a cabeça bem alta e fiquei como se não se passara nada. Certo que a lua brilhou toda a noite, certo que a barca se desatou da margem, Sim, não se pode entregar-se simplesmente, sim, há que ser fria e sem coração. Sim, tantas coisas poderiam acontecer, ai, a única resposta possível: Não.
3. No entanto, um belo dia, e era um dia azul, chegou um que não me pediu nada e pendurou seu chapéu num prego de meu quarto e eu já não sabia o que fazia. E mesmo sem dinheiro e ainda que pouco amável e que seu colarinho não estivesse limpo nem sequer ao domingo e nem mesmo soubesse o que merece uma senhora, a ele não disse: “Não”. Não mantive a cabeça bem alta e não fiquei como se não se passara nada. Ai, a lua brilhou toda a noite, e a barca permaneceu amarrada à margem, e não podia ser de outra forma! Sim, não há nada além do que entregar-se simplesmente, sim, não se pode permanecer fria nem sem coração. Ai, tiveram que se passar tantas coisas, sim, não pôde haver nenhum Não.
(tra(b)duzido da versão em espanhol de Jesús Munárriz y Jenaro Talens)
2. “Terezinha” de Chico Buarque
2. MARIA SEJAS LOUVADA, Brecht
Maria sejas louvada Como és tão apertada Uma virgindade assim É coisa demais p’ra mim.
Seja como for o sémen Sempre o derramo expedito: Ao fim dum tempo infinito Muito antes do amen.
Maria sejas louvada Tua virgindade encruada ‘Inda me pões fora de mim. Porque és tão fiel assim?
Por que devo eu, que dialho Só porque esperaste tanto Logo eu, o teu encanto Em vez doutro ter trabalho?
(tradução de Ardilio Correia)
3. RECORDAÇÃO DE MARIE A., Brecht
Naquele dia, num mês azul de setembro Em silêncio, à sombra da ameixeira Eu a tomei nos braços, amor pálido e Quieto, como um sonho formoso. E acima de nós, no belo céu do verão Havia uma nuvem, que olhei longamente Era bem alva, estava bem no alto Ao olhar novamente, desapareceu.
Desde então muitas luas passaram Mostrando no céu seu alvor As ameixeiras foram talvez cortadas E se me perguntas para onde foi o amor Respondo: Não consigo lembrar. Mas sim, sei o que queres dizer Suas feições, porém, para sempre se foram Sei apenas que naquele dia a beijei.
E mesmo o beijo, já o teria esquecido Não fosse aquela nuvem no céu Dela sei e sempre saberei: Era bem alva, estava bem no alto. As ameixeiras talvez ainda cresçam E ela agora deve ter muitos filhos Mas aquela nuvem cresceu alguns minutos Ao olhar novamente, desapareceu.
NINA SIMONE CANTA “Pirate Jenny” da Ópera dos 3 Vinténs
(1928) Bertolt Brecht, Kurt Weill
You people can watch while I’m scrubbing these floors And I’m scrubbin’ the floors while you’re gawking Maybe once ya tip me and it makes ya feel swell In this crummy Southern town In this crummy old hotel But you’ll never guess to who you’re talkin’. No. You couldn’t ever guess to who you’re talkin’.
Then one night there’s a scream in the night And you’ll wonder who could that have been And you see me kinda grinnin’ while I’m scrubbin’ And you say, “What’s she got to grin?” I’ll tell you.
There’s a ship The Black Freighter with a skull on its masthead will be coming in
You gentlemen can say, “Hey gal, finish them floors! Get upstairs! What’s wrong with you! Earn your keep here! You toss me your tips and look out to the ships But I’m counting your heads as I’m making the beds Cuz there’s nobody gonna sleep here, honey Nobody Nobody!
Then one night there’s a scream in the night And you say, “Who’s that kicking up a row?” And ya see me kinda starin’ out the winda And you say, “What’s she got to stare at now?” I’ll tell ya.
There’s a ship The Black Freighter turns around in the harbor shootin’ guns from her bow
Now You gentlemen can wipe off that smile off your face Cause every building in town is a flat one This whole frickin’ place will be down to the ground Only this cheap hotel standing up safe and sound And you yell, “Why do they spare that one?” Yes. That’s what you say. “Why do they spare that one?”
All the night through, through the noise and to-do You wonder who is that person that lives up there? And you see me stepping out in the morning Looking nice with a ribbon in my hair
And the ship The Black Freighter runs a flag up its masthead and a cheer rings the air
By noontime the dock is a-swarmin’ with men comin’ out from the ghostly freighter They move in the shadows where no one can see And they’re chainin’ up people and they’re bringin’ em to me askin’ me, “Kill them NOW, or LATER?” Askin’ ME! “Kill them now, or later?”
Noon by the clock and so still by the dock You can hear a foghorn miles away And in that quiet of death I’ll say, “Right now. Right now!”
Then they’ll pile up the bodies And I’ll say, “That’ll learn ya!”
And the ship The Black Freighter disappears out to sea And on it is me



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