No dia em que se cumprem os anos…
- 9 de nov. de 2012
- 2 min de leitura

[poema do meu 1o livro… não ia incluí-lo no livro, mas um querido amigo (João Mendes) gostou muito e eu incluí… gosto cada vez mais desse poema…]
Silêncio nos olhos – jefferson vasques
Sou uma criança. Se quiser não acreditar, não acredite, problema é seu.
Sim, eu sei, o tempo e a vida me deram esta cara de 30.
Mas já deu. Não quero mais enganar ninguém: sou criança.
Sim, sim, tive que me virar e me fazer passar por esse 28.705.946-7 que fui até agora.
Sabe como é, meus pais, um dia, simplesmente desapareceram… vapt vupt se foram. “Subiram por uma enorme escada até o céu”, foi o que me disseram (mas eu achava mesmo que tinham ido com o papai-noel – esse canalha).
E sobrei ali, no quintal, com a bola entre as mãos sem entender direito aquele
“mãe?”
silêncio
E foi na marra que aprendi algumas coisas que me exigiram (o tempo e a vida): aprendi a fazer a barba e a minha própria comida aprendi a escrever poesias a declarar amor e imposto de renda aprendi a mentir de verdade (e não como crianças fazem) aprendi a ter medo de olhar nos olhos (e isso é uma crueldade pra uma criança de minha idade) aprendi todos os requisitos básicos de higiene e, finalmente, aprendi a não abraçar quem gosto tão forte que não pudesse soltá-la caso fugisse – por aquela escada (enorme) – a qualquer momento.
Aprendi muitas coisas, muitas maquiagens. Compreendi os porquês da genética, da química inorgânica e da gravidade. Absorvi novas hipóteses sobre o surgimento do universo e lancei mão de complexos algoritmos de otimização de dados.
E certo dia – seria inevitável – compreendi a origem de todo o mal. (Nesse dia entendi porque meus pais foram embora.)
E desde então não pude ser omisso diante do que via porque me fazer adulto a esse ponto seria matar lentamente a criança que sou.
Fora isso, confesso, tenho passado por um adulto razoável e com a ajuda de alguma teatralidade nata própria de minha infantilidade secreta quase me orgulho de ser um cidadão comum, conseqüente, medíocre até.
Mas eu não agüento mais, não, não agüento. Tenho medo que me grude à farsa esta face. Este disfarce me consome as melhores horas do dia. As me-lho-res!
Criança! É isso!
De agora em diante não esconderei mais nada. Tenho 8, vontade de enfiar graveto em nariz de cachorro, vontade de abraçar a todos (té você, viu, seu bobo!), vontade de chorar num colo gostoso por pura manha por pura manhã e vontade de arranjar uma moça bem bonita pra casar.
Tenho 8, só 8, e carrego, ainda, uma bola entre as mãos.
Tenho 8, só 8.
O resto é silêncio se acumulando nos olhos



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