top of page

Nicomedes Santa Cruz (Peru)

  • 17 de mar. de 2010
  • 5 min de leitura

Hoje, fui filmar uns depoimentos no acampamento Elizabeth Teixeira do MST, na região de Campinas-Limeira, prum documentário que estou fazendo. Entrevistei o Ari, liderança da região. Já o conhecia de outras “atividades” do MST, mas nunca havia realmente conversado com ele. Putz! Que pessoa fantástica… tão simples e humilde e, ao mesmo tempo, figura inteligentíssima e muito sensível… sua inteligência não é daquelas típicas que estou acostumado a encontrar na universidade, mas daquela inteligência de minério temperado na terra, de lâmina que se vai afiando, lentamente, com as pedras do caminho. Fala com uma eloquência tranquila, sempre antenado ao contexto, procurando sacar os porquês da filmagem, o público, a inserção do filme, pra assim ajustar a linguagem, o discurso… Acabada as entrevistas, começamos um bate-papo informal… diz ele ter cursado até a 8a série, o que me espantou, pois me falava de suas leituras sobre os clássicos da filosofia política (Maquiavel, Hobbes, Marx…). Logo vc percebe que não foi da escola que ele tirou sua fome de entender o mundo, mas das contradições do seu caminhar coletivo. Na ação-conjunta de transformar o mundo é que foi sentindo a necessidade concreta de saber mais. É quando conhecimento deixa de ser acúmulo de informação, eruditismo, e torna-se o ar necessário da prática.

Foi com o Ari, hoje, que tive uma das conversas mais interessantes e agradáveis da minha vida sobre poesia… no meio da conversa, começou a declamar poemas de Castro Alves (um trecho do Navio Negreiro, em especial, que falava de como a luta contra mostros embrutece, me emocionou, pois há pouco conversávamos com uma acampada que nos dizia como o povo do acampamento andava mais isolado, tava perdendo a unidade do início). Pra minha mais apaixonante surpresa declamou, também, poemas do Augusto dos Anjos, um poeta difícil e não tão lembrado e pouco compreendido pelo qual sou fascinado! De quebra, conversando sobre a poesia de luta, me apresentou alguns poetas que desconhecia, dentre eles Nicomedes Santa Cruz, poeta peruano. Ah, que delícia! Seguem, abaixo, tra(b)duções de alguns poemas do peruano e uma entrevista que Nicomedes, que também foi jornalista, fez a Victor Jara.

Fiquei de levar, depois, pro Ari uma coletânea das tra(b)duções que tenho feito de poetas lutadores da América Latina… conversando com ele, ficou mais concreta a relevância de se ter um livro assim, pra militância, que apresente os poetas revolucionários de nossa Pátria Grande, o que me deu mais ânimo para acelerar minhas tra(b)duções!

Nicomedes Santa Cruz (Peru)

Nicomedes Santa Cruz Gamarra (1925-1992) foi poeta, cantor, pesquisador da cultura popular e jornalista, além de apresentador de rádio e televisão. É o representante máximo da negritude no Peru por ser o primeiro poeta a tratar do tema do negro ressaltando a importâncio do afro-peruano no desenvolvimento histórico do país. Interessante notar que ele cumpre um papel no Peru muito similar ao que cumpriu o artista negro Solano Trindade no Brasil: ambos trabalhando com a poesia negra, valorizando as raízes africanas, desenvolvendo trabalhos de teatro-dança resgatando e divulgando a cultura negra.

Nicomedes entrevista Victor Jara

A transcrição dessa entrevista pode ser encontrada em espanhol aqui! Dois meses depois dessa entrevista, Victor seria assassinado no golpe que derrubou o governo de Allende no Chile. Destaque para o trecho em que Victor e Nicomedes falam da necessidade de uma música que supere a canção de mobilização (panfletária), que permita que o trabalhador descubra a si mesmo em sua relação com seu companheiros de classe. O vídeo mostra um conjunto de fotos de Nicomedes e Jara bem legal.

Ritmos Negros do Peru (Nicomedes Santa Cruz)

Ritmos da escravatura Contra amarguras e penas. Ao compasso das correntes Ritmos negros do Peru.

Da África chegou minha avó vestida com “caracoles”/pixains**, a trouxeram os espanhóis em uma caravela. A marcaram com candeia, a carimba** foi sua cruz. E na América do Sul ao golpe de suas dores deram os negros tambores ritmos da escravatura

Por uma moeda só a revenderam em Lima e na Fazenda “La Molina” serviu à gente espanhola. Com outros negros de Angola ganharam por sua labuta pernilongos para suas veias para dormir duro solo e nadinha de consolo contra amarguras e penas…

Na plantação de cana nasceu o triste refúgio, na venda de rum o negro cantou a “zaña”**. O facão e a foice curtiram suas mãos morenas; e os índios com suas quenas e o negro com tamborete cantaram sua triste sorte ao compasso das correntes.

Morreram os negros velhos mas entre a cana seca se escuta seu “zambacueca”** e o “panalivio”** ao longe. E se escutam os festejos que cantaram em sua juventude. De Cañete a Tombuctú, De Chancay a Mozambique levam seus claros repiques ritmos negros do Peru.

** “caracoles”: pelo que pesquisei poderia ser tanto o babado de alguma vestimenta como o pelo encaracolado, que traduzi como pixaim. ** “carimba”: os negros eram marcados com um ferro chamado de “carimba”; “carimba!” também é uma interjeição de desgosto. **”zaña”: O canto dos negros escravos do povoado de Zaña da província de Chiclayo cantavam nos galpões em que viviam depois da colheita agrícola para descansar e dormir. Seu canto foi proibido por senhores patrões por sua mensagem anticlerical e contestatória da escravidão, no século XVII. **”zambacueca”: estilo musical e bailado de pares soltos, em que se representa o assédio amoroso de uma mulher por parte do homem. Faz alusão ao assédio similar entre galos e galinhas. Deriva da mestiçagem da música e dança trazidos por ciganos, escravos e negros de angola entre os séculos 16 e 17. **”panlivio”: é o nome que se dá a uma canção-lamento criada pelos escravos da Costa peruana no século XVII para expressar os maus-tratos que sofriam.

Escute:

Amércia Latina (Nicomedes Santa Cruz)

Meu Camarada Meu sócio** Meu irmão

Parceiro Camará** Companheiro

Minhas pernas Meu filhinho Campesino…

Aqui estão meus vizinhos. Aqui estão meus irmãos.

As mesmas caras latinoamericanas de qualquer ponto da América Latina:

Índiobranquinegros Branquinegríndios e Negríndiobrancos

Louros beiçudos Índios barbudos e negros alisados

Todos se queixam: -Ah, se em meu país não houvesse tanta política…! -Ah, se em meu país não houvesse gente paleolítica…! -Ah, se em meu país não houvesse militarismo, nem oligarquía nem chauvinismo nem burocracia nem hipocrisia nem clerezia nem antropofagia… -Ah, se em meu país…!

Alguém pergunta de onde sou (Eu não respondo o seguinte):

Nasci perto de Cuzco admiro a Puebla me inspira o rum das Antilhas canto com voz argentina creio em Santa Rosa de Lima e nos Orixás da Bahia Eu não colori meu Continente nem pintei de verde o Brasil amarelo Peru vermelha Bolívia

Eu não tracei linhas territoriais separando irmão de irmão.

Pouso a testa sobre Río Grande me afirmo pétreo sobre o Cabo de Hornos afundo meu braço esquerdo no Pacífico e submerjo meu direito no Atlântico.

Pelas costas do oriente e ocidente duzentas milhas entro à cada Oceano submerjo mão e mão e assim me aferro à nosso Continente em um abraço Latinoamericano.

**”socio” talvez pudesse ser melhor traduzido como “parceiro”, mas como ele utiliza “aparcerado” logo abaixo, optei por um outro sentido possível de “socio” que é “sócio” mesmo… **a palavra original é “camarado” pra qual não existe tradução… é “camarada” aplicada ao homem…


A noite

Nessas doze horas em que somos as costas do mundo naquele diário eclipse eclipse de povos eclipse de montes e desertos/”páramos” eclipse de humanos eclipse de mar o negro tinge à Terra metade da cara por mais que se ponha luz artificial

negrura de sombra sombra de negrura que ninguém assombra e a tudo perdura

escura a Espanha e claro o Japão escura Caracas e claro Cantão e sempre girando à Leste aqui enegrece lá está celeste

essa sombra imensa essa sombra eterna que teve começo no começo do começo rotativo eclipse eclipse total pede aos humanos um solene rito que é horizontal

e cada doze horas que chega me alegro porque meio mundo está negro e nele não cabe distinção racial.


 
 
 

Comentários


bottom of page