na “luta” da Mostra II
- 22 de out. de 2010
- 2 min de leitura
Abaixo outro poema selecionado pela mostra, de Paulo José Vieira.
XXVI (Paulo José Vieira)
“O homem e a hora são um só” (Fernando Pessoa)
Desde quando eu pequei e fui apartado do tempo, tive de aguardar os classificados de trabalho que só saem às quintas tive de assinar contrato de trabalho e correr atrás das horas
As horas no caminhão de frutas que dobrou a esquina As horas na garota que nunca vai saber a oração que minha mãe inventou As horas no texto de cada frase que eu não entendi
Que cheguem as sextas-feiras para que eu tenha mais finais de semana e envelheça mais rápido
A expectativa de vida aumenta em escala aritmética mas os juros e a morte sobre morte são juros compostos assim, logo vou alcançar a expectativa do Japão
Se eu passar em muito a expectativa de vida será por roubar os dias de meu falecido primo nesse jogo de médias que se tornou a vida
E às vésperas de me aposentar vou temer a monotonia, até que venha outra reforma da previdência e me decida trabalhar
Tem madrugada que acordo pensando que sou entrevado e que o tempo parou levanto sufocado e tento inspirar socos de minutos meu coração dispara e reanima o despertador no criado-mudo
Pensei na pior tortura para mim, mas resolvi não divulgá-la porque sou contra tortura e porque podem usá-la contra mim: um disco enroscado, travando o dia como uma estaca na órbita
Um disco enroscado é Penélope desfazendo o cachecol de ponto único que aprendeu na revista de crochê Um disco enroscado é Sherazade contando todo dia a mesma propaganda de um produto novo Um disco enroscado é o fim absoluto do tempo, é Deus antes do mundo e de Agostinho é saber-se em coma, é promessa de capitalismo, é Deus antes de Deus
O homem domina o tempo, eis dois exemplos: vai a uma pilha de minério mais velha que seus ossos e diz-lhe: “é minha!” paga um consórcio do jazigo que o terá e diz-lhe: “é meu!”
Aos oitenta e sete anos, trabalharei morrendo no Céu sim terei todo o tempo para ler e nenhum dilema da Coleção “Os Pensadores”
Paulo José Vieira (Campinas/SP): Formado em letras, atuou como professor e publicou o livro de poemas “Um dia depois da natureza” (2009).Contato: paulojosevieira@gmail.com



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