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Manifesto

Morreu ontem o escritor comunista, Pedro Lemebel, lutador ferrenho contra todas as opressões, em especial, a homofobia, ícone da contra-cultura chilena. Na foto, aparece com a foice e o martelo pintadas no rosto… foi assim que, num encontro clandestino de partidos de esquerda, durante a ditadura de Pinochet, de salto alto, leu o poema abaixo!


MANIFESTO (FALO POR MINHA DIFERENÇA)

Pedro Lemebel (Chile, 1952-2014)

Não sou Pasolini pedindo explicações. Não sou Ginsberg expulso de Cuba. Não sou uma bicha disfarçada de poeta. Não preciso de disfarces aqui está minha cara falo por minha diferença. Defendo o que sou e não sou tão esquisito. Me repugna a injustiça e suspeito dessa dança democrática. Mas não me fale do proletariado porque ser pobre e bicha é pior. Há que ser ácido para suportar. É ter que dar voltas nos machinhos da esquina é um pai que te odeia porque o filho desmunheca é ter uma mãe de mãos marcadas pelo cloro envelhecidas de limpeza te ninando como doente por maus modos por má sorte como a ditadura pior que a ditadura porque a ditadura passa e vem a democracia e logo depois o socialismo. E então? Que farão com nossos companheiros? Irão nos amarrar às tranças em fardos com destino a um sidário[2] cubano? Irão nos enfiar em algum trem para parte alguma como no barco do general Ibáñez [3] onde aprendemos a nadar mas ninguém chegou até à costa. Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas. Por isso as casas de caramba[4] brindaram com uma lágrima negra os carneiros comidos pelos caranguejos. Este ano que a Comissão de Direitos Humanos não lembra. Por isso companheiro te pergunto existe ainda o trem siberiano da propaganda reacionária? Esse trem que passa por suas pupilas quando minha voz fala demasiado doce? E você? Que fará com essa lembrança de meninos se tocando e outras coisas nas férias de Cartagena? O futuro será em preto e branco? O tempo será noite e dia de trabalho sem ambiguidades? Não haverá uma bichona em alguma esquina desequilibrando o futuro de seu novo homem? Vão nos deixar bordar pássaros nas bandeiras da pátria livre? O fuzil eu deixo a você que tem o sangue frio. E não é medo. O medo foi indo embora de mim no bloquear de facadas nos inferninhos sexuais onde andei. E não se sinta agredido se te falo dessas coisas e te olho o volume. Não sou hipócrita acaso os peitos de uma mulher não te fazem baixar a vista? Você não acredita que sozinhos na serra algo se passaria entre nós? Embora depois me odiasse por corromper sua moral revolucionária. Tem medo que se homessexualize a vida? E não falo de te enfiar e tirar e tirar e te enfiar somente falo de ternura companheiro. Você não sabe como custa encontrar o amor nestas condições. Você não sabe o que é carregar essa lepra. As pessoas ficam à distância. As pessoas compreendem e dizem: é viado mas escreve bem é viado mas é um bom amigo super-boa-onda[5]. Eu não sou boa-onda. Eu aceito o mundo sem lhe pedir essa boa-onda. Mas ainda assim riem. Tenho cicatrizes de risos nas costas. Você acredita que eu penso com o pau E que à primeira parrillada[6] da CNI[7] eu ia soltar tudo. Não sabe que a hombridade nunca a aprendi nos quartéis. Minha hombridade me ensinou a noite atrás de um poste. Essa hombridade de que você se gaba te enfiaram em um regimento um milico assassino desses que ainda estão no poder. Minha hombridade não recebi do partido porque me rechaçaram com risadinhas muitas vezes. Minha hombridade aprendi militando na dureza desses anos e riram da minha voz afeminada gritando: vai cair, vai cair. E embora você grite como homem não conseguiu que caísse. Minha hombridade foi amordaçada. Não fui ao estádio e me peguei nas porradas pelo Colo Colo[7]. O futebol é outra homossexualidade encoberta como o boxe, a política e o vinho. Minha hombridade foi morder as provocações engolir a raiva para não matar todo mundo. Minha hombridade é me aceitar diferente ser covarde é muito mais duro. Eu não dou a outra face dou o cu companheiro e esta é a minha vingança. Minha hombridade espera paciente que os machos fiquem velhos porque a esta altura do campeonato a esquerda entrelaça seu cu flácido no parlamento. Minha hombridade foi difícil por isso não subo nesse trem sem saber aonde vai. Eu não vou mudar pelo marxismo que me rechaçou tantas vezes. Não preciso mudar sou mais subversivo que vocês. Não vou mudar somente porque os pobres porque os ricos… a outro cachorro com esse osso. Tampouco porque o capitalismo é injusto em Nova Iorque as bichas se beijam na rua mas esta parte deixo para você que tanto te interessa. Que a revolução não se apodreça completamente. A vocês entrego esta mensagem e não é por mim eu estou velho e sua utopia é para as gerações futuras. Há tantas crianças que vão nascer com a asinha quebrada e eu quero que voem companheiro. Que sua revolução dê a eles um pedaço de céu vermelho para que possam voar. _________________

[1] Este texto foi lido como intervenção em um ato político da esquerda em setembro de 1986, em Santiago, Chile. Leia o poema original aqui: http://lemebel.blogspot.com.br/…/manifiesto-hablo-por-mi-di…

[2] Apesar de Sidario ser um nome próprio muito comum no Chile, o autor o usa como substantivo para denominar clínicas para tratamento de soropositivos. Cf.: livro de crônicas de Pedro Lemebel chamado “Loco afán: crónicas de sidariorio”, com textos que tratam, sobretudo, da marginalização de travestis e AIDS.

[3] Carlos Ibáñez del Campo reprimiu duramente os homossexuais sob seu governo… era comum soltar opositores de barco, com peso amarrado em seus pés, em alto mar

[4] Casas onde se cantam tonadillas. O termo alude à cantora tonadillera do século XVIII Maria Antónia Fernández, cujo apelido era Caramba.

[5] No original “buena-onda”, um trocadilho: alegre/ fresco.

[6] Prato típico chileno com diversos tipos de carne e frutos do mar, naturalmente no poema se trata de um trocadilho.

[7] CNI – Central Nacional de Informaciones de Chile – foi um organismo de inteligência do regime militar chileno. Criada em 1977, foi responsável por inúmeros casos de infiltração política, assassinatos, sequestros e tortura aos opositores do regime, além de estar relacionada ao roubo de banco e o tráfico de drogas e armas. Foi dissolvida em 1990, pouco antes do retorno da democracia. Muitos de seus agentes então foram realocados em outros cargos públicos, inclusive de segurança.

[8] Time de futebol chileno.

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(Tradução de Jeff Vasques, tendo por base tradução e notas de Nina Rizzi)


 
 
 

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