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Lara de Lemos (Brasil, 1925-2010)

  • 23 de mai. de 2011
  • 2 min de leitura


Lara de Lemos e Mario Quintana

Estimulado pelo querido Alípio Freire (militante, artista plástico e autor do livro de poesias “Estação Paraíso”), que conheci melhor numa mesa sobre arte engajada nos períodos de ditadura, na usp, faço este post sobre Lara de Lemos, poeta do sul, engajada nas causas políticas de sua época (escreveu junto com Paulo Cesar Pereio o Hino da Legalidade, canção entoada em todo país pedindo a posse do vice-presidente João Goulart que se encontrava suspensa pelos militares). Estabelecido o golpe militar de 64, ela e seus filhos foram presos e ela submetida a tortura. Já fora da prisão escreveu livros de poesia sobre a experiência do calabouço e da luta política, sendo o mais famoso o “Inventário do Medo”. Já encomendei uma antologia via estante virtual. Por enquanto, segue abaixo um pouco do material que o Alípio me passou.

CELAS – 1

Viajo entre túneis de sono como un cão vadio à procura do dono.

Viajo em barcos fastasma onde o tempo retrocede em busca da alma.

Viajo consultando arquivos e a memória ilumina rostos redivivos.

Viajo procurando portos e me encontro no país dos mortos.

CELA – 6

A hora dos capuzes negros é a hora mais negra dos prisioneiros.

Descer às cegas pelas cascatas apalpando paredes adivinhando fissuras

Pisando superfícies escorregadias de sangue e urina.

Às cegas.

Eis que me retornam vestes, sapatos, óculos, relógios.

Bolsa povoada de lenços, moedas, inúteis estojos.

Despojada até aos ossos não sei o que fazer de meus despojos.

CONTA CORRENTE

Para Wanda Maria

CRÉDITO DÉBITO

O creditado de mim o que dei não foi muito. foi pouco

Quatro sentidos o que nasce e uma visão: a si se opondo:

além do visgo meu sim, meu não do lucro minha sina

além do oco meu sangue aguado do homem de medo.

além do soco A palavra e a do mundo. mordaça.

SALDO

só o domado viver. Mais nada.

LEGADO

Para Laury Maciel

Recuso-me a herança deste poço vazio deste lodo legado em negligências.

Engulo a seco e calo. Aposto em cada poema — único engenho ainda não vencido.

Proponho rubros jogos olhos atentos para o imaginário.

Ases de puro ouro — naipes que guardo para meu incêndio.

O IRMÃO

No rosto a ruga na fala o susto na boca a baba no corpo o luto.

No sangue o saque na carne o fogo no riso a claque na palma o nome.

No olho o cisco nos pés a corda na dor o quisto na mão a vela.

Na cara o risco no dente a falha na casa o lixo na morte a vala

 
 
 

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