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Juan Gelman (argentina)

  • 1 de jul. de 2010
  • 3 min de leitura

Ficarei os próximos 12 dias isolado num convento, no meio do Capão Redondo, em sampa, participando do curso de formação de monitores do núcleo de formação política 13 de maio. Vai ser uma experiência e tanto… estarei esses 12 dias com mais 30 companheir@s de todo o Brasil sob a tutoria de Mauro Iasi e Scapi, aprendendo como educar e ser educado pela classe. Confesso que estou com friozin na barriga… vai ser bom esse retiro e essa experiência que venho desejando há 3 anos já. O curso dura 2 anos, mas esse intensivão de julho é uma importante prova de fogo. Espero voltar mais centrado, ou melhor, descentrado das minhas questões umbigais… nas quais me perco tanto. Bom, tudo isso pra dizer que durante esse período não sei se terei acesso a internet… se tiver, continuarei postando… estou levando livros de poesia para tra(b)duzir nas horas vagas 😉


Aqui vai um pouco de Juan Gelman, considerado o maior poeta argentino vivo. Gelman teve que se exilar durante a ditadura por causa de sua militância. Teve um filho e uma nora assassinados pela ditadura. Recebeu em 2007 o prêmio Cervantes, considerado o maior prêmio em língua espanhola.

Mulheres

dizer que essa mulher era duas mulheres é dizer pouquinho devia haver umas 12397 mulheres em sua mulher era difícil alguém saber com quem se tratava nesse povo de mulheres por exemplo:

estávamos deitados em um leito de amor ela era uma alvorada de algas fosforescentes quando a fui abraçar se converteu em singapura repleta de cães que uivavam recordo quando apareceu envolta em rosas de agadir parecia uma constelação na terra parecia que o cruzeiro do sul havía baixado à terra essa mulher brilhava como a lua de sua voz clara

como o sol que se punha em sua voz nas rosas estavam escritas todos os nomes dessa mulher menos um e quando se virou sua nuca era o plano econômico tinha milhares de cifras e a balança de mortes favoráveis à ditadura militar ninguém nunca sabia aonde ia parar essa mulher eu estava ligeiramente desconcertado uma noite a toquei no ombro para ver quem era e vi em seus olhos desertos um camelo

às vezes essa mulher era a banda municipal de meu povo tocava doces valsas até que o trombone começava a desafinar e os demais desafinavam com ele essa mulher tinha a memória desafinada

você podia amá-la até o delírio fazer crescer dias de sexo trêmulo fazer voar como passarinho de savana no dia seguinte se despertava falando de malevich

a memória lhe andava como um relógio com raiva às três da tarde acordava da carga que lhe pisoteou a infância numa noite do ser era muitas coisas essa mulher e era uma banda municipal

a devoraram todos os fantasmas que pude alimentar com suas milhares de mulheres e era uma banda municipal desafinada indo-se pelas sombras da pracinha de meu povo

eu companheiros uma noite como esta que nos embebem os rostos e em que provavelmente morremos montei no camelinho que esperava em seus olhos e me fui das costas tíbias dessa mulher

calado como um menino debaixo dos gordos abutres que me comem inteiro menos o pensamento de quando ela se unia como um ramo de doçura e o lançava pela tarde

Opiniões

Um homem desejava violentamente a uma mulher a umas quantas pessoas ele não parecia bem, um homem desejava loucamente voar, a umas quantas pessoas ele parecia mal, um homem desejava ardentemente a Revolução e contra a opinião da guarda civil trepou sobre os muros secos do devido, abriu o peito e sacando os arredores de seu coração, agitava violentamente a uma mulher, voava loucamente pelo teto do mundo e os povos ardiam, as bandeiras.

Costumes

não é para ficarmos em casa que fazemos uma casa não é para ficarmos no amor que amamos e não morremos para morrer temos sede e paciências de animal

Os iludidos

a esperança fracassa muitas vezes, a dor jamais, por isso alguns crêem que mais vale dor conhecida que dor por conhecer, crêem que a esperança é ilusão, são os iludidos da dor.

Epitáfio

Um pássaro vivia en mim. Uma flor viajava en meu sangue. Meu coração era um violino.

Quis ou não quis. Mas às vezes me quiseram. Também a mim me alegravan: a primavera, as mãos juntas, o feliz.

Digo o que o homem deve ser!

Aqui jaz um pássaro. Uma flor. Um violino.

Amor que serena, termina?

Amor que serena, termina? começa? que nova velhice o espera para viver? qual fulgor? amor surgindo

de si mesmo a si mesmo sendo também memória de si comendo de si, que velha

sombra chupará sua nuca? Oh pestes que visitaram meu país atacaram se foram alheias como o vento

 
 
 

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