Homenagem a Roque Dalton
- 11 de mai. de 2012
- 3 min de leitura

Há 37 anos atrás assassinavam, no dia 10 de maio, o poeta guerrilheiro Roque Dalton. Ele foi “justiçado” por seus próprios companheiros de organização, pois seu jeito heterodoxo, irreverente, provocativo, irônico e questionador foi interpretado pela moral conservadora desses militantes como uma vinculação com a CIA, como um infiltrado que tentava destruir por dentro a luta comunista. Assassinavam injustamente um dos poetas que mais lutou pela libertação de seu povo (El Salvador) e punham fim a escritura genial deste guerrilheiro.
Roque Dalton é o poeta-lutador que mais admiro dentro do panorama latinoamericano, o que mais venho traduzindo aqui no Passarin e o que mais tem me influenciado. Presto aqui esta singela homenagem traduzindo mais algumas de suas poesias. Quiçá ainda lançarei um livro em português com suas poesias traduzidas… é enorme a necessidade de tornar esse poeta, sua luta e poesia mais conhecida no Brasil… espero também, não daqui muito tempo, visitar El Salvador, seu país natal, e conhecer sua família.
Você pode ler mais poesias que traduzi dele aqui.
CATÓLICOS E COMUNISTAS NA AMÉRICA LATINA: ALGUNS ASPECTOS ATUAIS DO PROBLEMA
Me expulsaram do Partido Comunista muito antes de me excomungarem na Igreja Católica.
Isso não é nada: me excomungaram na Igreja Católica depois que me expulsaram do Partido Comunista.
Bah! Me expulsaram do Partido Comunista porque me excomungaram na Igreja Católica.
MISCELÂNEAS
Ironizar sobre o socialismo parece ser aqui um bom digestivo, mas te juro que em meu país primero deve-se conseguir o jantar.
Para mim, o socialismo é ainda uma etapa burguesa na história marxista da humanidade. E o digo precisamente em uma manhã em que me reconheço lúcido, quando faz quase uma semana que não provo uma gota de álcool.
O imperialismo deseja que a nação salvadorenha seja a Nação Salvadorenha S.A., Made in USA.
Digam o que somos do que somos: um povo sofrido, um povo analfabeto, desnutrido e no entanto forte, porque outro povo já teria morrido…
Sabe o que seria El Salvador se fosse do tamanho do Brasil?

POEMA DE AMOR
Os que ampliaram o Canal do Panamá (e foram classificados como “rolo de prata” e não como “rolo de ouro”*), os que repararam a frota do Pacífico nas bases da Califórnia, os que apodreceram nos cárceres da Guatemala, México, Honduras, Nicarágua, por ladrões, por contrabandistas, por estafadores, por famintos, os sempre suspeitos de tudo (“Permita-me me remeter ao morto por vagabundo suspeito e com o agravante de ser salvadorenho”), as que encheram os bares e bordéis de todos os portos e capitais da zona (“A gruta azul”, “O Shortinho”, “Terra feliz”), os semeadores de milho em plena selva estrangeira, os reis das páginas vermelhas***, os que nunca sabem de ninguém de onde são, os melhores artesãos do mundo, os que foram cozidos a balaços ao cruzar a fronteira, os que morreram de malária ou das picadas de escorpiões e das barbas amarelas** no inferno dos bananais, os que choraram bêbados com o hino nacional debaixo dum ciclone do Pacífico ou da neve do norte, os agregados, os mendigos, os maconheiros, os safados filhos de uma grande puta, os que apenas e somente puderam regressar, os que tiveram um pouco mais de sorte, os eternos sem-documentos, os fazem-tudo, os vendem-tudo, os comem-tudo, os primeiros a sacar a faca, os tristes mais tristes do mundo, meus compatriotas, meus irmãos.
* Na construção do canal do Panamá, os índios e negros (que ganhavam segundo padrão “silver roll”) recebiam menos e viviam em piores condições do que os trabalhadores brancos (“gold roll”). ** uma cobra venenosa bem comum na américa central. *** os que mais aparecem nas páginas criminais dos jornais
NÃO FIQUE BRAVO, POETA
A vida paga suas contas com teu sangue e tu segues crendo que és um ruisenhor.
Agarra a garganta dela de uma vez, a desnuda, a tombe e faça nela tua peleja de fogo, recheia sua tripa majestosa, a engravida, a põe a parir cem anos pelo coração.
Mas com lindo modo, irmão, com um gesto propício para a melancolia.
HORA DA CINZA
Finaliza setembro. É hora de dizer-te o difícil que foi morrer.
Por exemplo, esta tarde tenho nas mãos cinzentas livros formosos que não entendo, não poderia cantar ainda que tenha cessado a chuva e me cai sem motivo a recordação do primeiro cachorro a quem amei quando criança.
Desde ontem que te foi há umidade e frio até na música.
Quando eu morrer, só recordarão meu júbilo matutino e palpável, minha bandeira sem direito a se cansar, a concreta verdade que reparti desde o fogo, o punho que fiz unânime com o clamor de pedra que exigiu a esperança.
Faz frio sem ti. Quando eu morrer, quando eu morrer dirão com boas intenções que eu não soube chorar.
Agora chove de novo. Nunca foi tão tarde às 25 pras 7 como hoje.
Sinto desejos de rir ou de matar-me.



Comentários