Hans Magnus Enzensberger (Alemanha, 1929)
- 23 de jan. de 2011
- 4 min de leitura

Cansado de trabalhar na dissertação, comecei a dar uma olhada na estante e reencontrei dois livros do poeta alemão Hans Magnus Enzensberger e decidi postar alguns poemas aqui. Esses poemas já estão traduzidos para o português, mas como sua poesia é pouco conhecida por aqui, resolvi divulgar uma seleção.
Hans Magnus é considerado um dos maiores poetas vivos da Alemanha. Estudou literatura, línguas e filosofia em universidades alemãs e na Sorbonne. É Ensaísta, organizador de livros, autor infanto-juvenil, dramaturgo, biógrafo e romancista. Com tom sarcástico, sua poesia ataca o capitalismo e a vida burguesa, mas tampouco poupa a esquerda esclerosada.
As traduções são de Kusrt Scharf e Armindo Trevisan, com exceção de “Defesa dos Lobos contra os cordeiros” traduzido por Afrânio Novaes.
BREVE HISTÓRIA DA BURGUESIA
Este foi o momento, quando nós, sem nos apercebermos, durante cinco minutos estávamos imensamente ricos, generosamente refrigerados com a eletricidade no verão, ou caso fosse o inverno, a lenha, trazida de longe via aérea, ardia em lareiras estilo renascentista. Curioso: havia tudo, vindo por avião, de certa maneira automaticamente. Elegantes éramos, ninguém nos aturava. Jogávamos pelas janelas concertos de solistas, chips, orquídeas embrulhadas em celofane. Nuvens que diziam: “Eu”. Únicos!
Íamos a todas as partes em vôos de carreira. Mesmo os nossos suspiros eram pagos com cartões de crédito. Xingávamos como gralhas, todos ao mesmo tempo. Cada um guardava a sua própria desgraça debaixo do assento, à mão. Que pena! Era tão prático. A água corria à toa das torneiras. Lembram-se? Simplesmente atordoados por nossos sentimentos minúsculos comíamos pouco. Se soubéssemos que tudo passaria em cinco minutos, teríamos saboreado bem mais, muito mais, o roast-beef Wellington.
PARA O LIVRO DE LITERATURA DE SEGUNDO GRAU
Não leia odes, meu filho, lê os horários (dos trens, dos ônibus, dos aviões): são mais exatos. Abre os mapas náuticos antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes. Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu: a mudar de bairro, de passaporte, de rosto. Entende da pequena traição, da salvação suja de todos os dias. Úteis são as encíclicas para se fazer fogo, e os manifestos: para a manteiga e sal dos indefesos. É preciso raiva e paciência para se soprar nos pulmões do poder o fino pó mortal, moído por aqueles, que aprenderam muito, que são exatos por ti.
DEFESA DOS LOBOS CONTRA OS CORDEIROS
(Tradução de Afrânio Novaes)
deve o abutre se alimentar de flores? o que exigis do chacal? que ele mude de pele? e do lobo? que ele mesmo limpe os dentes? o que não apreciais nos coronéis e nos papas? o que vos deixa perplexos na tela mentirosa?
quem irá então costurar para o general a condecoração sanguinária em sua calça? quem irá fatiar o capão diante do agiota? quem irá ostentar orgulhoso a cruz-de-ferro diante da barriga que ronca? quem irá pegar a gorjeta, a soma, a propina? há muitos roubados, poucos ladrões; quem então os aplaude? quem lhes coloca a insígnia? quem é ávido pela mentira?
vede no espelho: covardes, que evitam a fadiga da verdade, avessos ao aprender, o pensar é deixado a critério dos lobos, a coleira é vossa jóia mais cara, nenhuma ilusão é tão estúpida, nenhum consolo é tão barato, qualquer chantagem ainda é para vós branda demais.
cordeiros, irmãs são as gralhas comparadas a vós: cegais uns aos outros. a irmandade reina entre os lobos: eles vão em bandos.
louvados sejam os predadores: vós, convidativos ao estupro, vos atirais sobre o leito negligente da obediência. mentis e ainda soltais ganidos. quereis ser estraçalhados. vós não mudais o mundo.
UMA VAGA LEMBRANÇA
Nos nossos debates, companheiros, me parece às vezes havermos esquecidos algo, não é o inimigo. não é a linha. não é a meta. não consta no Breve Curso.
Se nunca o tivéssemos sabido não haveria luta. Não me perguntem o que é. Não sei como se chama. Apenas sei que é o mais importante aquilo que esquecemos.
RAZÕES ADICIONAIS PARA OS POETAS MENTIREM
Porque o momento no qual a palavra feliz é pronunciada, jamais é o momento feliz. Porque quem morre de sede não pronuncia sua sede Porque na boca da classe operária não existe a palavra classe operária. Porque quem desespera não tem vontade de dizer: “Sou um desesperado”. Porque orgasmo e orgasmo não são conciliáveis. Porque o moribundo em vez de alegar: “Estou morrendo” só deixa perceber um ruído surdo que não compreendemos. Porque são os vivos que chateiam os mortos com suas notícias catastróficas. Porque as palavras chegam tarde demais, ou cedo demais Porque, portanto, é sempre um outro, sempre um outro quem fala por aí, e porque aquele do qual se fala se cala.
MODELO DA TEORIA DO CONHECIMENTO
Aqui tens uma grande caixa com o rótulo: caixa. Se a abrires encontraras nela uma caixa com o rótulo: caixa. Se a abrires – agora me refiro a esta caixa não àquela – , encontrarás nela uma caixa com o rótulo etcetra; e se continuares depois de infindáveis fadigas uma caixa infinitamente pequena com um rótulo tão miúda que, por assim dizer, se evapora diante de teus olhos. É uma caixa que existe só na tua imaginação. Uma caixa totalmente vazia.



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