Gritaram-me negra! - Victoria Santa Cruz
- Trunca Edicoes

- 22 de set. de 2022
- 2 min de leitura

Gritaram-me negra! (Victoria Santa Cruz)
Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos.
Sete anos nada!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram: Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
Por acaso sou negra? Disse a mim mesma
Sim!
E o que é ser negra?
Negra!
E eu não sabia a verdade triste que aquilo escondia
Negra!
E me senti negra
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e olhei envergonhada para minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi…
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Passava o tempo,
e eu sempre amargurada
Continuava carregando nas costas
minha carga pesada
E como pesava!
Alisei meu cabelo,
coloquei pó-de-arroz na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava
a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
Até que um dia retrocedi tanto
que ia cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí?
E daí? Negra!
Sim! Negra!
Sou! Negra!
Negra! Negra!
Sou negra
Negra! Sim!
Negra! Sou!
Negra! Negra!
Negra! Sou negra!
De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles
que para poupar — segundo eles —
que para poupar-nos de algum dissabor
chamam os negros de pessoas de cor
E de que cor? Negra!
E que lindo soa! Negra!
E que ritmo tem?
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO
Por fim!
Por fim entendi
Por fim!
Não retrocedo mais
Por fim!
E avanço segura
Por fim!
Avanço e espero
Por fim!
E bendigo aos céus porque Deus quis
que minha cor fosse negro azeviche
E já entendi
Por fim!
Já tenho a chave
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Sou negra!
(tradução Coletivo Trunca)



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