Gioconda Belli
- 13 de jul. de 2013
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Gioconda Belli (Nicarágua, 1948) é uma das poetas nicaraguenses mais conhecidas dentro e fora de seu país. Ainda jovem se integrou às fileiras da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) na luta pela derrubada do governo ditatorial de Somoza. Foi correio clandestino, transportou armas, viajou pela Europa e América recolhendo recursos e divulgando a luta sandinista. E, claro, no meio de tudo isso, escrevia suas poesias. Com o triunfo da Revolução Nicaraguense, em 1979, ocupou vários cargos dentro do governo revolucionário. Com a posterior burocratização do partido no poder, Gioconda se afasta da FSLN e passa a criticar duramente seu “endireitamento”.
De início, a poesia de Belli, produzida no contexto da revolução nicaraguense, coloca grande ênfase na união dos nicaragüenses contra a tirania de Somoza, tratando o amor de um casal como metáfora da unidade sociopolítica e de gênero em oposição a tirania. Esse amor era “arma contra a opressão… o desejo dionisíaco que vence a morte, o desespero”. Belli apresentava, então, a mulher como a entidade destinada principalmente a dar amor, associada com o sentimental e com o passivo. Ela era a natureza e a paisagem nicaragüenses, a terra que esperava ser possuída pelo amante-guerrilheiro (ativo, forte e que domina o espaço público), dicotomia de gênero própria do universo patriarcal.
Porém, Belli também já incluía em seus versos elementos inovadores da representação feminina, fissuras no discurso patriarcal que evidenciavam a negociação que a escritora fazia entre o tradicional e o novo. Com a vitória da revolução nicaraguense, essas fissuras vão aos poucos crescendo e uma nova identidade feminina vai se assumindo como voz dominante em sua poética, ainda que com recaídas próprias das tensões com o velho discurso. Belli realiza uma corajosa autocrítica do eu-feminino, reconhece o excessivo idealismo com que encarava as relações amorosas, passa a questionar abertamente a submissão da mulher e a defender que esta possa estabelecer seus próprios limites, suas próprias regras, o que realmente quer ou não quer no amor.
Vista em sua totalidade, a poesia de Belli é um fantástico registro da trajetória do eu-feminino, com seus conflitos e contradições de identidade até uma consciência feminista. Um retrato bastante genuíno das latinoamericanas-lutadoras do século XX e começo do XXI, com seus acertos e também com sua incansável negociação com a opressão tradicional de nossa cultura machista e patriarcal.
Jeff Vasques
NOVA TESE FEMINISTA (Gioconda Belli, tradução de Jeff Vasques)
Como te dizer homem que não te necessito? Não posso cantar a liberação feminina se não te canto e te convido a descobrir liberações comigo.
Não me agrada a gente que se engana dizendo que o amor não é necessário -“tenha medo, eu tremo”
Há tanto novo que aprender, formosos homens da caverna a resgatar, novas maneiras de amar que ainda não inventamos.
Em nome próprio declaro que gosto de me saber mulher frente a um homem que se sabe homem, que sei de ciência certa que o amor é melhor que as multi-vitaminas, que o casal humano é o princípio inevitável da vida,
que por isso não quero jamais liberar-me do homem; o amo com todas suas debilidades e gosto de compartilhar sua teimosia todo este amplo mundo onde ambos somos imprescindíveis.
Não quero que me acusem de mulher tradicional mas podem me acusar tantas como quantas vezes queiram de mulher.
REGRAS DO JOGO PARA OS HOMENS QUE QUEIRAM MULHERES MULHERES (Gioconda Belli, tradução de Silvio Diogo)
I O homem que me amar deverá saber abrir as cortinas da pele, encontrar a profundidade de meus olhos e conhecer o que se aninha em mim, a andorinha transparente da ternura.
II O homem que me amar não desejará possuir-me como uma mercadoria, nem me exibir como troféu de caça, saberá estar a meu lado com o mesmo amor com o qual estarei ao lado seu.
III O amor do homem que me amar será forte como as árvores de ceibo, protetor e seguro como elas, puro como uma manhã de dezembro.
IV O homem que me amar não duvidará de meu sorriso nem temerá a abundância de meu cabelo, respeitará a tristeza, o silêncio e com carícias tocará meu ventre como violão para que brotem música e alegria do fundo de meu corpo.
V O homem que me amar poderá encontrar em mim a rede onde descansar do pesado fardo de suas preocupações, a amiga com quem compartilhar seus íntimos segredos, o lago onde flutuar sem medo de que a âncora do compromisso o impeça de voar quando queira ser pássaro. de vir a ser pássaro.
VI O homem que me amar fará poesia com sua vida, construindo cada dia com o olhar posto no futuro.
VII Acima de todas as coisas, o homem que me amar deverá amar o povo não como uma palavra abstrata tirada da manga, mas como algo real, concreto, a quem render homenagem com ações e dar a vida, se necessário.
VIII O homem que me amar reconhecerá meu rosto na trincheira joelhos no chão me amará enquanto os dois disparam juntos contra o inimigo.
IX O amor de meu homem não conhecerá o temor da entrega, nem terá medo de se descobrir ante a magia da paixão em uma praça cheia de multidões. Poderá gritar – te amo – ou colocar placas no alto dos edifícios proclamando seu direito de sentir o mais lindo e humano dos sentimentos.
X O amor de meu homem não fugirá das cozinhas, nem das fraldas do filho, será como um vento fresco levando consigo, entre nuvens de sonho e de passado, as fraquezas que, durante séculos, nos mantiveram separados como seres de distintas estaturas.
XI O amor de meu homem não desejará rotular ou etiquetar, me dará ar, espaço, alimento para crescer e ser melhor, como uma Revolução que faz de cada dia o começo de uma nova vitória.
NÃO ME ARREPENDO DE NADA (Gioconda Belli, tradução base de Silvio Diogo, versão de Jeff Vasques)
Daqui, da mulher que sou, às vezes me entrego a contemplar aquelas que eu podia ter sido; as mulheres primorosas, modelo de virtudes, trabalhadoras boas esposas que minha mãe desejou para mim.
Não sei por quê passei minha vida inteira me rebelando contra elas odeio suas ameaças em meu corpo a culpa que suas vidas impecáveis por um estranho feitiço, me inspiram;
revolto-me contra seus bons ofícios, os prantos noturnos sob o travesseiro, às escondidas do marido o pudor da nudez, por baixo da passada e engomada roupa íntima.
Estas mulheres, no entanto, olham-me do interior de seus espelhos, levantam um dedo acusador e, às vezes, cedo a seus olhares de reprimenda e gostaria de ter a aceitação universal, ser a “boa menina”, a “mulher decente” a impecável Gioconda, tirar dez em conduta com o partido, o estado, as amizades, minha família, meus filhos e todos os demais seres que, abundantes, povoam este nosso mundo.
Nesta contradição invisível entre o que deveria ter sido e o que é travei numerosas batalhas mortais, batalhas inúteis delas contra mim – elas contra mim que sou eu mesma –
Com a “psique dolorida” despenteio-me transgredindo ancestrais programações desgarrando-me das mulheres internas que, desde a infância, torcem o rosto para mim pois não me encaixo no molde perfeito de seus sonhos, pois me atrevo a ser esta louca falível, terna e vulnerável que se apaixona feito puta triste por causas justas, homens bonitos e palavras brincalhonas pois, já adulta, atrevi-me a viver a infância proibida, e fiz amor sobre escrivaninhas em horários comerciais e rompi laços invioláveis e me atrevi a desfrutar o corpo são e sinuoso com que os genes de todos os meus ancestrais me dotaram.
Não culpo ninguém. Melhor, agradeço a eles pelos dons. Não me arrependo de nada, como disse Edith Piaf. Porém, nos poços escuros em que me afundo; nas manhãs em que, ao entreabrir os olhos, sinto as lágrimas fazerem força apesar da felicidade que finalmente conquistei rompendo estratos e camadas de rocha terciária e quaternária, vejo minhas outras mulheres sentadas no vestíbulo fitando-me com olhos doídos e me culpe pela felicidade.
Irracionais boas meninas rodeiam-me e desfilam suas canções infantis contra mim; contra esta mulher feita plena esta mulher de peitos em peito e largos quadris que, por minha mãe e contra ela, eu gosto de ser.



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