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Canto do companheiro de rota

  • 14 de jul. de 2012
  • 2 min de leitura


Tradução de um belo poema de José Pedroni, poeta argentino (1889-1968).

Canto do companheiro de rota

Deixa-me marchar com vocês, poetas surgidos do povo; deixa-me ser vosso companheiro de rota em meu último trecho.

Não quero ficar esquecido em um mundo velho. Quero marchar com aqueles que “entoam os cantos novos dos tempos novos.”

Deixa-me ser vosso companheiro de viagem. Venho de longe. Veja aquele confim de pedra e fumaça; aquele deserto.

Para alcançá-los na marcha me livrei de todo o peso. Tive que atravessar minha própria noite de extremo a extremo; abrir-me passo entra as ramas negras de um bosque seco… Para alcançá-los na rota do ar fresco.

Cheguei, por fim, mas estou pelo chão. Ajuda-me a me por de pé, poetas surgidos do povo; leva-me onde a água; dá-me vosso lenço; ensina-me um lugar de trigo jovem, para jogar-me de peitos, e deixa-me dormir meu primeiro dia em vosso dia novo.

Toda a noite comtemplei as luzes da cidade sem medo. Está ali, junto a um rio, onde o trigal se encontra com o céu. Porque vou alcançá-la e perdê-la, quero chegar com os primeiros.

Cheio de ramas mortas está a árvore do mundo velho. Já se o vê no poente. O vento é forte e fresco. Traz o rumor de vocês do batalhão do povo que às costas leva a árvore e os pássaros do mundo novo. Os poetas estão no caminho e fazem ali os versos. Estão poeta, operário e campesino unidos na folha do trevo. Há quem olha e não vê; há quem não olha o canto mensageiro, e há quem se põe à rua para alcançar o trovão da marcha de vocês e de papoulas. Eu sou um destes. Minha porta fica aberta e a golpeia o vento.

Deixa-me ir com vocês companheiros!

Uma pomba que me guia, branca, será meu formoso sonho; a pomba que espera e se adianta, de curtos voos; a pombra que todos vemos uma vez ao menos; que se recorda como a um anjo, o anjo bom.

Ao despertar-me, não digam de mim nem isto nem aquilo. Atrás deixei a noite do passado, e já não a recordo. Se algo quer dizer, diga: – Chegou o bom velho. Diga: – Quer ser nosso companheiro de rota; quer que o levemos; quer marchar com aqueles que “entoam os cantos novos dos tempos novos”

Atrás deixei os fardos do passado. Já não os sinto. Não me deixavam ver os cumes. Me livrei deles. Como a planta sem a pedra, estou direito. E agora quero marchar com vós, poetas verdadeiros; fazer vosso caminho de sol e nascimento de trigo e bosque resgatados e de galos que cantam nos tetos.

Dá-me a voz, que é tarde, logo, que se vai o tempo. Sobre a rota estou com meu cavalo. Não posso contê-lo.


 
 
 

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