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Auto-retrato

  • 17 de ago. de 2013
  • 1 min de leitura

GRE  SÃO PAULO  10/05/2013        CIDADES  ASSEMBLÉIA GREVE  PROFESSORES  Confronto entre policiais e manifestantes durente aseembléia dos professores da rede estadual de ensino na avenida paulista.  FOTO: JF DIORIO/ ESTADÃO

(foto do confronto entre professores e polícia em manifestações em maio de 2013 na Av. Paulista, São Paulo)

AUTO-RETRATO (Nicanor Parra, Chile, 1914- )

Considere, garotos, esta língua roída pelo câncer: sou professor em um colégio obscuro perdi a voz dando aulas. (Afinal – ou só pra começar – faço quarenta horas semanais.) Que lhes parece minha cara humilhada?, verdade que inspira lástima, olhem pra mim!

E que dizem deste nariz podre pela cal do giz degradante.

Em matéria de olhos, a três metros não reconheço nem a minha própia mãe. Que me acontece? Nada! Os arruinei dando aulas: a luz ruim, o sol, a venenosa lua miserável. E tudo para quê! para ganhar um pão imperdoável duro como a cara do burguês e com sabor e com cheiro de sangue.

Para que nascemos como homens se nos dão uma morte de animais!

Pelo excesso de trabalho, às vezes vejo formas estranhas no ar, ouço corridas loucas, risadas, conversas criminais. Observem estas mãos e estes bochechas brancas de cadáver, estes escassos cabelos que me sobram, estas negras rugas infernais! No entanto, eu fui assim como vocês, jovem, cheio de belos ideais, soava como o cobre se fundindo e limando as caras do diamante: aqui me têm hoje detrás desta mesona desconfortável embrutecido pela ladainha das quinhentas horas semanais.

Tradução de Jeff Vasques | Mais poesias de Nicanor aqui: http://eupassarin.wordpress.com/tag/nicanor-parra/

 
 
 

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