Arte engajada na América Latina
- 16 de mai. de 2011
- 2 min de leitura
Estou feliz e ao mesmo tempo apreensivo por ter sido convidado para compor a mesa “Arte engajada durante as ditaduras latino-americanas” no envento “Arte engajada na América Latina” que está ocorrendo na USP. Estarão na mesa também Alípio Freire (poeta-militante preso e torturado durante a ditadura) e a professora Gabriela Peregrino da FFLCH.
Estou muito feliz de estar na mesa com o Alípio, figura que admiro e pra quem fiz questão de enviar meu livrinho de poesia assim que ficou pronto. É claro que minha fala vai focar centralmente nos poetas lutadores da américa e em suas poesias… feliz por poder dar vazão a essa pesquisa que venho realizando há algum tempo e apreensivo pela responsabilidade de falar sobre tanta gente que morreu lutando contra o capitalismo, lutando com armas e palavras.
Eventos desse tipo são cada vez mais raros! Feliz de ver gente como a Letícia Simões assumindo a bronca de organizar um evento como esse… parabéns!
Se estiverem por sampa, essa mesa será na quarta agora (18/maio) às 17h nas salas da FEA-1 (Economia-USP). Segue o cartaz com toda a programação e depois um belo poema do Alípio.

1 de março de 1992 – Alípio Freire
O velho anota no metrô seu poema velho da vitória do que houve de mais velho quando era demais jovem.
Ninguém além do velho se interessa por seu poema antiquado
Sem rima e sem metro.
O velho do metrô usa óculos e bigodes e nos pés um par de tênis surrados
Sem laço e sem cadarço.
Com a memória em 64 os pés em 22 a cabeça em 68 e o coração sem tempo o velho anota seu poema
Datado.
Mulheres de todas as idades entram e saem do metrô do mesmo modo como o fizeram na vida do velho.
Pernas verdes, amarelas, azuis e brancas. Pernas vermelhas – Para que tanta perna, meu deus?! –, considera o velho.
Mas as pernas passam as mulheres passam os amores passam a vida passa. Tudo na vida passa. E envelhece.
Rejuvenescido pela poesia que passa o velho sorri um sorriso ateu ciente de que o metrô não é O Trem d’A História e de que deus não existe.
Assim, desembarca no Paraíso.
O velho sorri solitário e despojado de expectativas
No metrô Na gare Na vida.
O velho deixa a estação mergulha na chuva fina da noite declina qualquer autoenternecimento ou comiseração pública faz xixi na árvore da esquina e prossegue em direção ao vazio assobiando uma velha melodia
Por que não?



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