Apresentação da Antologia de Poesias de Luta por Jeff Vasques
- Trunca Edicoes

- 14 de abr. de 2022
- 10 min de leitura

APRESENTAÇÃO
Poesia em tempos de bárbarie?
“Quem é o ignorante que sustenta que a poesia não é indispensável aos
povos? Há pessoas de tão curta visão mental, que crêem que toda a
fruta se resume a sua casca. A poesia, que congrega ou desagrega, que
fortifica ou angustia, que sustenta ou demole as almas, que dá ou tira
dos homens a fé e o alento, é mais necessária aos povos que a própria
indústria, pois esta lhes proporciona o modo de subsistir, enquanto que
aquela lhes dá o desejo e a força da vida.”
As afirmações desta epígrafe soam exageradas e logo imaginamos que foram proferidas por algum artista idealista, sonhador, descolado da realidade da luta de classes. Contudo, não é este o caso. São palavras de ninguém menos que José Martí, um dos maiores poetas de nosso continente e o maior líder da luta pela independência cubana, morto no campo de batalha por essa causa. Sabendo disso, somos obrigados a reler essas provocações, digeri-las. Qual seria o papel da poesia em nosso tempo? Em um mundo em que a miséria e a violência irracional crescem barbaramente, a arte e a poesia parecem perder qualquer função. Qual seria a utilidade da poesia para a lutadora e para o lutador que lidam, a todo instante, com situações urgentes, duras, concretas? Por que perder o precioso tempo da luta com poesia? Quantas batalhas já foram ganhas com um verso? Parece que as imensas tarefas colocadas diante de nós simplesmente não rimam com poesia...
Se seguirmos essa lógica utilitarista, seria um enorme contrassenso que, em meio a uma guerrilha, na selva, um combatente faminto, exausto, asmático, abrisse espaço, em seus raros intervalos de descanso, para a poesia. Pois esse guerrilheiro existiu e não só dedicava esse tempo à leitura, como escrevia em seus cadernos surrados poemas em meio à batalha. Esse guerrilheiro-poeta foi Che Guevara.
Che, assim como inúmeros outros militantes e artistas revolucionários, nos mostra que é justamente diante das lutas e períodos históricos mais difíceis quando se faz mais necessário fortalecer nossa humanidade, ainda que esmagada, torturada, ainda que pálida, magra, esquálida. De tanto lutarmos contra abismos, corremos o risco de nos abismarmos. Por isso, neste período de barbárie, mais do que nunca precisamos fortalecer tudo que nos faz mais humanos, menos máquinas, menos engrenagens, tudo que nos devolva o gosto rebelde das pequenas-grandes alegrias e liberdades, subvertendo a ordem do dia. Nisso, e em algumas outras coisas, pode nos ajudar a arte, a poesia. E, mais intimamente, nos toca aquela poesia produzida por lutadores e lutadoras de nossa classe, produzida por aqueles que dedicaram sua vida para que houvesse mais vida: poetas e poesias de luta.
Essas são poesias comprometidas com a minha e com a tua vida, como nos diz Thiago de Mello. Poesias que não são somente para o deslumbramento, grande adereço da melancolia, como falava Dalton, mas que seguem sendo belas entre as belas armas reais que brilham debaixo do sol, entre nossas mãos e sobre nossos ombros. Poemas que no povo se fazem maduros como o sol na garganta do futuro, afirmou certo Gullar. Poesias daqueles que sabem que nem só de poesia vive o poeta, que há o fim do mês, como sempre nos alertou Solano Trindade; poesia dos que defendem que a vida é a mais alta poesia, como provocava Otto Castillo. Poesia que é menos que poesia, talvez anti-poesia, como ensinou Nicanor Parra, ou então é mais que poesia, é a muralha – de Guillén – se abrindo diante do coração amigo e se fechando para o veneno e o punhal traiçoeiros. Um incêndio no sangue, sentia Rugama, um relâmpago perpétuo, trovejava Scorza. Poesia que crava pés no chão para abrir, no olhar, horizontes. Poesia contraditória: sim dentro do não. Poesia para os que precisam se enternecer, sem perder a dureza, jamais! Sim, camaradas, há lugar para os poetas na barricada, como nos anuncia Pedro Tierra, e esses são tão importantes porque com suas palavras levantam bandeiras, entoam hinos, atiram contra os inimigos, enfim, nos devolvem “desejo e força de vida”, como nos dizia Martí.
Poesia comprometida e poesia de luta
Toda poesia, toda literatura, toda arte é comprometida. O artista, ao escolher certos temas e certas formas para expressá-los, manifesta, ainda que de forma inconsciente, um olhar específico sobre seu gênero artístico e uma determinada postura sobre o mundo em que vive. Nascemos mergulhados na história e tudo que produzimos, sejam cadeiras, poemas, ou utopias, estão encharcados das relações históricas de produção, com suas formas específicas de poder, luta e valoração. O poema vem ao mundo não só pelas mãos do poeta, mas também pelas mãos da história. Parafraseando Marx, os poetas fazem seus próprios poemas, mas não o fazem como querem, não o fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam, a partir de sua classe, legadas pelas lutas do passado. Partimos sempre de um chão histórico dado e podemos negá-lo ou aceitá-lo, seja em aspectos específicos ou em sua totalidade. Não há, portanto, como separar o ser-no-mundo de sua obra artística.
Toda poesia, nesse sentido, é política, mesmo quando não aborda questões sociais e políticas, porque expressa, com seu fazer artístico ou silêncio seletivo, vetores que legitimam ou rompem com o mundo herdado. Mas nem toda poesia, literatura, arte é “de luta”. Primeiro, é preciso esclarecer que quando digo “poesia de luta” não me refiro aos poemas que trazem necessariamente em seu conteúdo questões político-sociais, mas àqueles produzidos por militantes que lutam pela superação do capitalismo em diversos graus de engajamento. Se a militância revolucionária se torna parte substancial da vida do poeta, sua poesia refletirá, direta ou indiretamente, as contradições, a consciência e o olhar próprio de uma subjetividade revolucionária, que luta. E é dentre essa poesia, “de luta”, que podemos encontrar o que há de mais desenvolvido na poética mundial. Para explicar melhor essa minha afirmação, traço um paralelo com a reflexão de Michael Löwy acerca da produção do conhecimento revolucionário.
Para Löwy, a atividade de compreender a realidade se assemelha à ação de um artista ao pintar a paisagem, capturando o real com seu pincel. Para essas atividades são fundamentais: 1. a posição (mirante) do artista/cientista, ou ponto de vista de classe que define o horizonte de visão da realidade, que define a possibilidade objetiva de uma visão determinada da paisagem; 2. a técnica do artista ou método de pesquisa do cientista, a "forma de olhar" que pode concretizar essa possibilidade objetiva. Essa forma de olhar é condicionada não só pela posição de classe, mas por outras determinações, que lhe conferem uma autonomia relativa, como: nacionalidade, geração, cultura, sexo, o acúmulo em relação à tradição (clássicos) e, por fim, as qualidades individuais.
Löwy conclui que a ciência situada na perspectiva mais vasta e mais totalizante (que ocupa o melhor mirante) é a vinculada à classe proletária, que precisa da verdade para se libertar e, em sua luta, conhece elementos específicos de sua realidade que são, também, conhecimentos necessários a toda sociedade. Só a classe trabalhadora pode perceber, de forma concreta e mais completa, a historicidade do sistema capitalista, permitindo a sua superação. É importante fazer a ressalva de que a perspectiva do proletariado (seu “mirante”) de forma alguma garante o conhecimento da verdade social e a superação do capitalismo, apenas permite uma possibilidade mais objetiva de acesso à verdade.
Como Löwy, defendo que a classe trabalhadora não só ocupa a melhor posição social (o melhor “mirante”, segundo sua metáfora espacial) para compreender a realidade (conhecimento científico), como, também, para apreendê-la artisticamente. E, dentre a classe, sua vanguarda revolucionária estaria ainda em melhores posições, já que se encontra na crista das contradições dinâmicas entre capital e trabalho. Logo, os poetas da classe trabalhadora, em especial os poetas da vanguarda em luta da classe trabalhadora, ocupam a melhor posição social para observar, vivenciar, sentir e apreender as contradições dinâmicas da realidade e produzir a melhor poesia, a mais necessária, aquela que é resultado dos confrontos entre o velho e novo ser humano, entre a velha e a nova ordem social. É da arte em luta que pode florescer a arte mais desenvolvida de nosso tempo histórico, a arte revolucionária. Mas é importante frisar, assim como fizemos sobre a produção do conhecimento, que ser “de luta” não faz dessa poesia, automaticamente, a mais desenvolvida. Ocupar o melhor “mirante” estabelece, apenas, melhores condições ao poeta para apreender a realidade em seu movimento objetivo e subjetivo nos corações e mentes.
Recapitulando: 1) toda poesia é comprometida; 2) nem toda poesia é de luta; 3) é dos poetas lutadores, de suas poesias de luta, que pode nascer a poesia mais desenvolvida de nosso período histórico. Não se deve concluir dessas afirmações que a arte ou poesia produzida pela burguesia é desnecessária. Em diversos momentos históricos foram estes que produziram o conhecimento mais justo sobre a realidade e a arte mais representativa. Por isso, é importante absorvermos os clássicos, aqueles que fizeram o conhecimento e a arte avançar ainda que com limitações relacionadas a seu horizonte de classe. O que não podemos aceitar, de forma alguma, é desconhecer a arte e a poesia produzida pela vanguarda revolucionária de nossa própria classe. Pois é essa a arte, é essa poesia, que abre caminho para a superação do capitalismo, seja ao denunciar suas misérias sociais e íntimas; seja ao apresentar germes da nova mulher e do novo homem; seja ao nos ajudar na apreensão da realidade (externa e interna, em seus aspectos racionais e emocionais); seja ao construir símbolos de unidade da classe em luta; seja ao cantar a memória de nossos atos históricos e mártires. É esse tipo de poesia, a de luta, possivelmente a mais desenvolvida de nossa Pátria Grande neste século, a que entoa o “canto melhor”, o “canto necessário”, que você encontrará nesta antologia.
Poesias de luta da América Latina
Esta antologia é, muito provavelmente, a primeira do gênero no Brasil. Ao menos, não tenho conhecimento de qualquer outra como esta. Já foram produzidas antologias similares, mas focadas na poesia brasileira, como as organizadas no livro “Canto Melhor”, por Manoel Sarmento Barata, em 1969, e nos Cadernos do Povo Brasileiro – Poemas para a Liberdade (CPC da UNE), por Moacyr Félix, em 1963. Mas nenhuma abrange a poesia latinoamericana. Há a interessante antologia “Poetas da América de Canto Castelhano" de Thiago de Mello, mas que não está dedicada aos poetas de luta. Mesmo em língua espanhola, nas Américas, não há muitas coletâneas com esse caráter. Ao que tudo indica, a primeira antologia do gênero surge em 1975, impressa pelo governo cubano com o nome de “Assalto aos céus”. Tive conhecimento de apenas quatro outras antologias do gênero, dentre elas a “Poesia Trunca”, organizada por Mario Benedetti, em 1977, importante divulgador e incentivador desses poetas combatentes.
Essa ausência de antologias se dá, em grande medida, pelo apagamento histórico resultante da contra-ofensiva burguesa após o avanço das revoluções socialistas do século e de seus levantes populares pela América. Essa contra-ofensiva impôs a derrota à esquerda revolucionária através das ditaduras instauradas em toda a América, orquestradas pelo imperialismo norte-americano. No Brasil, em específico, esse apagamento se agrava por uma certa postura econômica e cultural imperialista, que se fecha para a produção artística da américa latina. Ainda mantemos uma linha de Tordesilhas que nos separa de nossos irmãos de continente. Não conhecemos a história e cultura das Américas, menos ainda a história e cultura de suas organizações revolucionárias. Espero com esta antologia (e com o projeto Eupassarinho – www.eupassarinho.org) reduzir um pouco esse desconhecimento.
Você encontrará nesta antologia, segundo a classificação de Benedetti, poetas-lutadores (poetas que em certo momento de suas vidas se engajaram nas lutas revolucionárias, como Ferreira Gullar); lutadores-poetas (militantes que lançaram mão da poesia como arma
e ferramenta de ausculta de si e da história (como Che Guevara, Carlos Mariguella) e aqueles, mais raros, que foram igualmente grandes lutadores e poetas, como José Martí (Cuba) e Roque Dalton (El Salvador). São aproximadamente 160 poesias de 80 poetas lutadores de 22 países, abrangendo, centralmente, o período histórico da segunda metade do século XX.
Trata-se de um período único na história das Américas, quando se forjou uma crescente unidade cultural entre os povos, efervescência das artes em luta que, enraizadas nas manifestações tradicionais de seus povos, projetavam o vir-a-ser da classe trabalhadora, época do movimento da Nueva Canción (ou Nueva Trova, como ficou conhecido
em Cuba). Período em que foi possível observar os germes da pátria imaginada por Bolívar, a Pátria Grande, que reuniria os povos da América Latina em uma só pátria, que segundo Martí, é a humanidade.
Os poemas selecionados retratam as mais diversas lutas sociais, os anseios, amores, valores de lutadores e lutadoras, em grande medida guiados pelo espírito revolucionário comunista, havendo também posições mais raras na esfera do anarquismo e de campos mais difusos da esquerda. Muitos desses poetas morreram em combate, nos porões, na tortura, ou passaram por intensos períodos presos, nas guerrilhas, desenvolvendo papéis não só de combatentes,
artistas engajados em seu tempo histórico, mas também de intelectuais orgânicos de sua classe. Muitos vivenciaram derrotas e, alguns poucos, vitórias revolucionárias. Em geral, foram desprezados ou ridicularizados por seus companheiros de organização, já que a poesia era vista como um desvio burguês. Foi necessário, como diz Benedetti no comovente poema “Estes poetas são meus”, que sacrificassem a própria vida para que suas letras e suas lutas fossem reconsideradas. São, em geral, os militantes mais autocríticos e questionadores, como observamos no poema “Não somos os melhores” de Thiago de Mello, escrito após vivenciar a derrota de Allende. Não-raro esses poetas-lutadores sofreram repreensões justamente por sua criticidade (como aponta Alex Polari em seu fenomenal “Escusas Poéticas II”, verdadeiro manifesto da poesia de luta). E não podemos deixar de mencionar o caso mais revoltante, o assassinato do poeta salvadorenho Roque Dalton por seus próprios companheiros de organização, que não compreendiam (ou não aceitavam) o caráter heterodoxo de sua personalidade, reflexão e arte. Por tudo isso, a poesia de luta, carregada de crítica e autocrítica, é um importante instrumento de apreensão de nossa história, de nossa época atual e do futuro com que tanto sonhamos.
Advirto que há muitas limitações nesta seleção que precisam ser consideradas: limitações da pesquisa, já que não é fácil, no Brasil, encontrar esse tipo de material; limitações econômicas (foi necessário limitar o número de poetas e poesias para reduzir o tamanho do livro e assim torná-lo economicamente acessível); limitações e preferências várias do organizador (busquei, sempre, favorecer a diversidade). Logo, espero que vejam esta antologia como uma janela aberta para um novo universo, e sigam na pesquisa por essa reconexão com a força de
nossa classe latinoamericana, expressa em suas lutas, arte e poesias.
Há ainda um apêndice com mais poetas que não entraram na seleção oficial, com poesias muito utilizadas nos cursos de formação política do 13 de Maio. E, também, uma tradução inédita do único poema de Lênin de que se tem conhecimento. Desejo boa luta com as palavras e boa leitura da realidade!
Jeff Vasques - 2017



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