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Alex Polari de Alverga (Brasil, 1951)

  • 28 de mar. de 2011
  • 4 min de leitura


Alex Polari de Alverga nasceu em João Pessoa, em 1951 e participou da luta armada contra a ditadura militar na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) que realizava ações armadas contra o regime militar e lutava pela liberação de presos políticos. Foi um dos principais responsáveis pelo sequestro do embaixador alemão, nos anos 1970. Foi preso no DOI-CODI em 1971 e barbaramente torturado. Polari sobreviveu para denunciar ao próprio Tribunal Militar o assassinato de Stuart Angel (filho da estilista Zuzu Angel) retratado no poema “Canção para Paulo” e as torturas que sofreu e presenciou.

Em 1978, ainda preso, lançou seu primeiro livro de poesia: “Inventário de Cicatrizes”. Em 1980 foi finalmente libertado e se envolveu com o Santo Daime, não escrevendo mais poemas.

A poesia de Polari é coloquial, direta, despojada e bem humorada, apesar de profundamente marcada pela experiência da clandestinidade, do cárcere, da tortura. Abaixo uma pequena seleção que fiz… incluindo o poema “Amar em aparelhos” que, pra mim, é de seus melhores. (“Aparelho” é como os militantes chamavam as casas em que atuavam clandestinamente).


DIA DA PARTIDA

Aí eu virei para mamãe naquele fatídico outubro de 1969 e com dezenove anos na cara uma mala e um 38 no sovaco, disse: Velha, a barra pesou, saiba que te gosto mas que estás por fora da situação. Não estou mais nessa de passeata, grupo de estudo e panfletinho tou assaltando banco, sacumé? Esses trecos da pesada que sai nos jornais todos os dias. Caiu um cara e a polícia pode bater aí qualquer hora, até qualquer dia, dê um beijo no velho diz pra ele que pode ficar tranqüilo eu me cuido e cuide bem da Rosa. Depois houve os desmaios as lamentações de praxe a fiz cheirar amoníaco com o olho grudado no relógio dei a última mijada e saí pelo calçadão do Leme afora com uma zoeira desgraçada na cabeça e a alma cheia de predisposições heróicas. Tava entardecendo.

AMAR EM APARELHOS

Era uma coisa louca trepar naquele quarto com a cama suspensa por quatro latas com o fino lençol todo ele impresso pelo valor de teu corpo e a tinta do mimeógrafo.

Era uma loucura se despedir da coberta ainda escuro fazer o café e a descoberta de te amar apesar dos pernilongos e a consciência de que a mentira tem pernas curtas.

Não era fácil fazer o amor entre tantas metralhadoras panfletos, bombas apreensões fatais e os cinzeiros abarrotados eternamente com o teu Continental, preferência nacional.

Era tão irracional gemer de prazer nas vésperas de nossos crimes contra a segurança nacional era duro rimar orgasmo com guerrilha e esperar um tiro na próxima esquina.

Era difícil jurar amor eterno estando com a cabeça à prêmio pois a vida podia terminar antes do amor.

CANÇÃO PARA “PAULO” (À STUART ANGEL)

Eles costuraram tua boca com o silêncio e trespassaram teu corpo com uma corrente. Eles te arrastaram em um carro e te encheram de gases, eles cobriram teus gritos com chacotas.

Um vento gelado soprava lá fora e os gemidos tinham a cadência dos passos dos sentinelas no pátio. Nele, os sentimentos não tinham eco nele, as baionetas eram de aço nele, os sentimentos e as baionetas se calaram.

Um sentido totalmente diferente de existir se descobre ali, naquela sala. Um sentido totalmente diferente de morrer se morre ali, naquela vala.

Eles queimaram nossa carne com os fios e ligaram nosso destino à mesma eletricidade. Igualmente vimos nossos rostos invertidos e eu testemunhei quando levaram teu corpo envolto em um tapete.

Então houve o percurso sem volta houve a chuva que não molhou a noite que não era escura o tempo que não era tempo o amor que não era mais amor a coisa que não era mais coisa nenhuma.

Entregue a perplexidades como estas, meus cabelos foram se embranquecendo e os dias foram se passando.

INDAGAÇÕES I

Quando me interessei pelo mundo e procurei o sentido da vida a ética dependia da pontaria a certeza era fácil estava mais nas entranhas e no coração do que nos livros. Hoje a coerência dos sistemas me parece ridícula e se nos livramos de uma certa pressa entendendo melhor a vida e a teoria, isso não significa que o problema da opção mudou.

IDÍLICA ESTUDANTIL

Nossa geração teve pouco tempo começou pelo fim mas foi bela a nossa procura ah! moça, como foi bela a nossa procura mesmo com tanta ilusão perdida quebrada, mesmo com tanto caco de sonho onde até hoje agente se corta.

SEMÂNTICA EXISTENCIAL

Debaixo da janela de minha cela desfilam a 1ª Companhia, a 2ª Companhia, a 3ª Companhia e as demais companhias que não solucionam minha solidão

ZOOLÓGICO HUMANO

o que somos é algo distante do que fomos

ou pensamos ser. Veja o mundo: ele se move sem nossa interferência veja a vida: ela prossegue sem nossa licença veja sua amiga: ela se comove por outros corpos que não o seu.

Somos simplesmente o que é mais fácil ser: lembrança sentimento fóssil referência ética apenas um belo ornamento para a consciência dos outros.

A quem interessar possa: Estamos abertos à visitação pública sábados e domingos das 8 às 17 horas.

Favor não jogar amendoim.

TRILOGIA MACABRA (I – O TORTURADOR)

O torturador Difere dos outros Por uma patologia singular ser imprevisível vai da infantilidade total à frieza absoluta.

Como vivem recebendo Elogios e medalhas Como vivem subindo de posto, Pouco importam pelos outros. Obter confissões é uma arte O que vale são os altos propósitos O fim se justifica, Mesmo pelos meios mais impróprios.

Além de tudo o torturador, Agente impessoal que cumpre ordens superiores No cumprimento de suas funções inferiores, Não está impedido de ser um pai extremoso De ter certos rasgos E em alguns momentos ser até generoso.

Além disso acredita que é macho, nacionalista, Que a tortura e a violência São recursos necessários Para a preservação de certos valores E se no fundo ele é mercenário Sabe disfarçar bem isso Quando ladra.

Não se suja de sangue Não macera nem marca, (a não ser em casos excepcionais) o corpo de suas vítimas, trabalha em ambientes assépticos com distanciamento crítico – não é um açougueiro, é um técnico – sendo fácil racionalizar que apenas põe a serviço da pátria da civilização e da família uma sofisticada tecnologia da dor que teria de qualquer maneira de ser utilizada contra alguém para o bem de todos.


 
 
 

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