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A poesia de Fabio Weintraub

  • 11 de jan. de 2010
  • 4 min de leitura

Andando pela biblioteca, peguei por impulso o livro “Novo Endereço” do Fabio Weintraub simplesmente porque na capa tava lá, “Prêmio Casa de las Américas“, uma das maiores premiações literárias do novo continente, oferecida por uma organização cultural de Cuba, criada logo após a revolução cubana. Esse prêmio já revelou, dentro outros, Roque Dalton na poesia (há traduções que fiz aqui mesmo no Contra-ordem) e Eduardo Galeano (lá pros idos de 70, quando ele estava ainda longe de ser “conhecido”). Confesso que sonho com meu livrinho de poesia sendo reconhecido nessa Casa de companheiros de luta e letras… (esses sonhos bobos que a gente tem que ter). Acho que parte do impulso que me fez pegar o livro na prateleira tinha, também, motivações obscuras… dentro de mim, lá num canto escuro e sujo, como aqueles no fundo dos bares onde as caixas de cerveja cultivam um cheiro doce e azedo, bem de lá, uma vozinha ogra me sussurrava: não esquenta, jeff, a poesia desse cara nem deve ser grande coisa…

Dispersado os ogros interiores, comecei a ler o livro, edição bilingue espanhol/português bem acabada. Cheguei na metade dele e disse… que coisa insossa… (os ogrinhos das caixas de cerveja voltaram batendo palmas), nem parece poesia… cadê o choque? a força? o frêmito? (os ogrinhos uivavam levantando placas com meu nome). Mas, (e este post não teria função se não fosse por esse “mas”), continuando a leitura até o final do livro, a poesia se manifez, se frescou, fulminou qualquer possibilidade de contra-leitura. À medida que avançava nos versos foi se me abrindo aos poucos os seus lugares de força, o andor de sua temporalidade, os espaços donde se espia a vida, em resumo, foi se me revelando sua luz própria! E eis que a dicção do poeta, a gramática-poética própria do Fabio foi fazendo efeito, vagarosamente, como um anestésico que se toma no dentista e vai nos embobecendo a língua, até parecer que ela não é mais nossa. Era a luminiscência própria da fala do poeta lumiando as páginas todas.

Fabio Weintraub usa uma linguagem muito simples, coloquial, descrevendo situações banais que todos vivemos, cheio de históriazinhas do diadia citadino, dos perdidos carinhos, do lirismo dos semáforos, dos momentos que só o menino sozinho no banco de trás do carro pode perceber e guardar numa caixa de música de memória… assim ele vai tecendo essa luminura tênue, uma luzinha azulada com a qual nos mostra com delicadeza (e crudelíssimo distanciamento) pequenas cenas da família, das relações, das pessoas sozinhas nas cidades…

Pra ler poesia é preciso paciência e abertura pra conseguir, aos poucos, captar a dicção do poeta, sua gramática-de-emoções, o ponto donde fala, com que tom de voz, olhando pra que horizontes, com que dor em que parte do corpo, com que cor de sorriso frio, dando às costas a que continentes, dando à mão pra quem…. essa coisa-toda que vamos lendo pralém das linhas enquanto lemos uma obra… vou chamar isso de Ler-o-Autor. Em todo bom livro de poesia existe uma ficção que vai se construindo nos espaços entre as palavras, entre os poemas; vai se construindo o personagem-do-autor. Ler-o-Autor é ler a invenção que o poeta faz de si mesmo para si e seus leitores. Ler-o-autor é entender se o poeta vê o mundo de cima de um mirante, ou escondido no banco dos fundos do ônibus cheio, se voando através dos tempos numa luz amarela, se por um calmo olhar frio diante dos fatos incontroláveis e incontornáveis… Pra Ler-o-autor é preciso abertura de olhar, é preciso se deixar guiar, confiar no autor. Por isso a importância de se deixar ler pelo livro. (Sem ogros, portanto, te sussurrando sobre como deve ser a obra!)

Aqui vai um poema dessa simplicidade lírica do Fabio, mesmo que em um só poema (assim que reler o livro digo mais de sua gramática-poética e tento trazer trechos de vários poemas):

Mais magro

Mais magro Meu amigo está mais magro Volto a encontrá-lo dois ou três verões mais tarde e chego mesmo a dizê-lo: Você está mais magro. Problemas de intestino… responde-me esquivo … já estive pior, agora voltei a engordar. Não peço detalhes mas vejo o ombro mirrado entre as alças da regata Evito tocá-lo pois a mera proximidade física parece estranha agora que meu amigo está mais magro

Novamente juntos caminhamos pela orla marítima Eu lhe recito algum verso ele me ensina outro insulto e há quase alegria de trégua não fosse o fato dele estar mais magro

Se ainda ontem tocassem os telefones insones na barra da madrugada e meu amigo dissesse palavras de testamento eu sairia correndo para deitar-lhe compressas na testa já repartida

Se fosse eu o afogado dentro da onda invisível de bílis, lua e silêncio ele pagava o resgate limpava o sal de meus cílios me devolvia em segredo sobre a toalha mais limpa

Mas hoje estamos exaustos há um dreno em nossa bondade: minha boca só tem dentes e meu amigo está mais magro

(de Novo endereço, 2002)

(se alguém quiser ver o próprio autor declamando esse poema vá logo aqui)

 
 
 

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