A Hora da Semeadura
- 23 de mar. de 2014
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(foto do enterro de Cláudia Silva Ferreira assassinada covardemente por PMs no Rio de Janeiro)
A HORA DA SEMEADURA (Manuel José Arce Leal, Guatemala, 1935-1985)
E não nos deixaram outro caminho. E está bem que assim seja. Recebemos o golpe na rosto, o chute na cara. E demos a outra face, silenciosos e mansos, resignados.
Então começaram os açoites, começou a tortura. Chegou a morte. Chegou noventa mil vezes a morte. A lavravam devagar, rindo-se, com alegria de nosso sofrimento.
Já não se trata somente de nós os homens. O saque constante de nossas energias, o roubo permanente do suor em quadrilha, à mão armada, com a lei a seu lado. Já não se trata somente da morte por fome. Já não se trata somente de nós os homens. Também às mulheres, aos filhos, a nossos pais e a nossas mães. Os violam, os torturam, os matam. Também a nossas casas, as queimam. E destroem as plantações. E matam as galinhas, os porcos, os cães. E envenenam os rios. E não nos deixam outro caminho. E está bem que assim seja.
Trabalhávamos. Trabalhávamos além das forças. Começávamos a trabalhar quando aprendíamos a caminhar e não nos detíamos senão no momento de nossa morte. Morríamos de velhos aos trinta anos. Trabalhávamos. O suor era um rio que se bifurcava: de um lado se tornava miséria, fadiga e morte para nós: do outro lado, riqueza, vício e poder para eles. No entanto, seguimos trabalhando e morrendo século após século. Mas nem assim se abrandavam suas caras para nós. Vieram com suas armas e suas armas vieram para nos matar. E não nos deixaram outro caminho.
E tivemos que empunhar as armas também. A princípio eram as pedras, os galhos das árvores. Logo, os instrumentos da lavoura, as enxadas, os facões, as foices, nossas armas. Nosso conhecimento da terra, o passo incansável, nossa capacidade de sofrimento, o olho que conhece e reconhece cada folha, o animal que avisa, o silêncio que aperta as mandíbulas. Essas foram primero nossas armas. Não tínhamos armas. Eles sim tinham: as compravam com nosso trabalho e logo as usavam contra nós.
Agora temos armas: as deles. Quando vieram noturnos para nos matar os enfrentamos, caímos como raios e tomamos as armas, agarramos as armas. Cada fuzil custa muitas vidas. Mas são maiores as mortes que nos custa se seguem nas mãos deles. E não nos deixaram outro caminho. E está bem que assim seja.
Porque desta vez as coisas vão mudar definitivamente. Estão mudando. Já mudaram.
Cada bala que disparamos leva a verdade do amor por nossos filhos, por nossas mulheres e nossos mais velhos e pela terra mesma e por suas árvores. E por isso há mulheres e crianças combatendo junto a nós. Quando semeamos o milho, sabemos que deverão se passar luas e sóis até que a espiga sorria com seus grãos e se torne alimento. E quando disparamos nossas armas é como se semeássemos e sabemos que virá uma colheita. Talvez não a vejamos. Talvez não comeremos de nossa semeadura. Mas ficam plantadas as sementes. As balas que eles atiram só levam morte. Nossas balas germinam, se tornam vida e liberdade, são metal de esperança.
As coisas se tranformaram. E está bem que assim seja. Temos limpado e azeitado as armas. Colocamos as sementes no alforje e empreendemos a marcha sérios e silenciosos por entre a montanha. É a hora da semeadura.
(tradução de Jeff Vasques)



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