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Fala!

  • 10 de jul. de 2013
  • 2 min de leitura

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[foto minutos antes de conflito entre polícia e manifestantes na Turquia]

FALA! (Aziz Nesin, Turquia, 1915-1995)

Cala-te, não fales, é uma vergonha, cessa tua voz, cala-te enfim, pois, se a fala é prata, o silêncio é ouro. As primeiras palavras que ouvi desde criança, quando chorava, ria, brincava, me diziam: “cala-te!”.

Na escola me esconderam meias verdades, me diziam: “O que te interessa? Cala-te!” Me beijou a primeira menina por quem me apaixonei e me [diziam: “Procura não dizer nada, pss… silêncio!” Cessa tua voz e não fales, mantém-te calado, E isso perdurou até meus vinte anos.

A fala do adulto, o silêncio da criança, Via traços de sangue na calçada, “O que te interessa?” me diziam, “Vais meter-te numa enrascada, cala-te!”

Mais tarde berravam meus superiores: “Não metas o nariz por toda a parte, finge que não estás entendendo, cala-te!”

Casei-me, tive filhos, e lhes ensinei a ficarem calados, minha mulher era honrada e trabalhadeira e sabia manter-se calada. Tinha uma mãe prudente, que lhe dizia: “Cala-te!”

Em anos bissextos meus pais, meus vizinhos me aconselhavam: “Não compliques, finge que não viste nada. Cala-te!” Talvez não tenhamos tido uma relação invejada com aqueles vizinhos, mas o “Silêncio!” nos unia.

Cala! de um, cala! de outro, cala! dos de cima, cala! dos de [baixo, cala! de todo o prédio e de todo o quarteirão. Cala! das ruas transversais e das ruas paralelas. Já engolimos nossa língua… Temos boca e voz não temos. Formamos uma associação do “Cala!” E nos reunimos muitos, uma cidade inteira, uma potência enorme, mas muda!

Fomos bem sucedidos, chegamos ao topo, nos condecoraram, tudo muito fácil, só com o “Cala!”. Grande arte esse “Cala!”.

Ensina-o à tua mulher, a teu filho, à tua sogra e, quando sentires necessidade de falar, arranca a tua língua e faze-a calar-se. Corta-a pela raiz. Lança-a aos cães. O único órgão inútil desde o instante em que não o usas certo.

Assim não terás pesadelos, remorsos e dúvidas. Não envergonharás teus filhos e te livrarás do pesadelo de falar sentenças do tipo “você tem razão; sou como você!” Ah! —Ai de mim —como eu gostaria de falar!

Mas não falarás, virarás tagarela, cuspirás besteiras em vez de [voz. Corta a tua língua, corta-a agora. Fica mudo. É melhor teres a coragem de fazê-lo, já que não [falarás. Corta a tua língua.

Para seres pelo menos consistente com meus planos e sonhos, entre soluços e acessos seguro minha língua, porque acho que chegará o momento que não suportarei e explodirei e não me intimidarei e esperarei e todo minuto encherei minha garganta com uma descarga sonora, com um sussurro, com uma gaguez, com um berro que me dirá: FALA!

(tradução de Francisco José dos Santos Braga)

 
 
 

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