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Sou um caso perdido

  • 5 de fev. de 2012
  • 2 min de leitura


Sou um Caso Perdido – Mario Benedetti

Por fim um crítico sagaz revelou (eu já sabia que iam descobrir) que nos meus contos sou parcial e tangencialmente apela que assuma a neutralidade como qualquer intelectual que se respeite

creio que tem razão sou parcial disto não tem dúvida mais ainda eu diria que um parcial irrecuperável caso perdido enfim já que por mais esforço que faça nunca poderei chegar a ser neutro em vários países deste continente especialistas destacados fizeram o possível e o impossível para curar-me da parcialidade por exemplo na biblioteca nacional do meu país ordenaram o expurgo parcial dos meus livros parciais na Argentina me deram quarenta e oito horas (e senão me matavam) para que me fosse com minha parcialidade nos ombros por último no peru isolaram minha parcialidade e a mim me deportaram de ter sido neutro não teria necessitado essas terapias intensivas porém que se vai fazer sou parcial incuravelmente parcial e mesmo que possa soar um pouco estranho totalmente parcial

já sei isso significa que não poderia aspirar a tantíssimas honras e reputações e preces e dignidades que o mundo reserva para os intelectuais que se respeitam quer dizer para os neutros com um agravante como cada vez existem menos neutros as distinções se dividem entre pouquíssimos

além disso e a partir das minhas confessas limitações devo reconhecer que a esses poucos neutros tenho certa admiração ou melhor lhes reservo certo assombro já que na realidade é necessário uma têmpera de aço para se manter neutro diante de episódios como girón tlatelolco trelew pando la moneda

é claro que a gente e talvez seja isto o que o crítico queria me dizer poderia ser parcial na vida privada e neutro nas belas-letras digamos indignar-se contra Pinochet durante a insônia e escrever contos diurnos sobre a atlântida

não é má ideia e lógico tem a vantagem de que por um lado a gente tem conflitos de consciência e isso sempre representa um bom nutrimento para a arte e por outro não deixa flancos para que o fustigue a imprensa burguesa e/ou o neutro

não é má ideia mas já me vejo descobrindo ou imaginando no continente submerso a existência de oprimidos e opressores parciais e neutros torturados e verdugos ou seja a mesma confusão cuba sim ianques não dos continentes não submergidos

de modo que como parece que não tenho remédio e estou definitivamente perdido para a frutífera neutralidade o mais provável é que continue escrevendo contos não neutros e poemas e ensaios e canções e novelas não neutras mas aviso que será assim mesmo que não tratem de torturas e prisões ou outros tópicos que ao que parece tornam-se insuportáveis para os neutros

será assim mesmo que tratem de borboletas e nuvens e duendes e peixinhos

 
 
 

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