Poeta, cristão, marxista: Cardenal
- 20 de ago. de 2010
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Ernesto Cardenal é, talvez, o poeta vivo mais importante da América Latina. Sempre envolvido com as lutas políticas de seu país, a Nicarágua, ordenou-se padre e depois foi afastado pela igreja católica por causa de seu envolvimento com os sandinistas. Com a chegada dos sandinistas no poder, Cardenal assume o cargo de ministro da cultura mas tempos depois renuncia e se afasta do ‘partido’ alegando seu esclerosamento e amoldamento a ordem. Passa a participar, desde então, do Movimento de Renovação Sandinista do qual também faz parte Carlos Mejía Godoy, cantor revolucionário da Nicarágua, já mencionado – indiretamente – neste post.
“Acredito que seria mais desejável um autêntico capitalismo do que essa falsa revolução.” (Cardenal sobre o governo de Ortega da FSLN)
Essa crítica a Frente Sandinista está na raiz do poema “Salmo 1” onde critica duramente o partido (mas vejam que ele continua se organizando em partido… a questão aqui é o esclerosamento do partido). Também ficou famoso por seus poemas amorosos-políticos, seus epigramas, onde mistura suas relações afetivas com a situação política da Nicarágua (ditadura de Somoza).
Enquanto foi ministro da cultura, desenvolveu as Oficinas Populares de Poesia: eram células de criação e discussão coletiva da produção poética dos jovens radicalizados na luta: operários, artesãos, estudantes, vendedores de rua. O propósito era que a poesia fosse um veículo de expressão artística possível, revolucionária e popular, criando uma nova dinâmica entre progresso artístico e progresso social. Essa iniciativa foi pouco valorizada pela FSLN.
Seguem algumas tra(b)duções.
SOMOZA INAUGURA A ESTÁTUA DE SOMOZA NO ESTÁDIO SOMOZA
Não é que eu pense que o povo me erigiu esta estátua porque eu sei melhor que vós que eu mesmo a ordenei. Nem tampouco pretenda passar com ela à posteridade porque eu sei que o povo a derrubará um dia. Nem que tenha querido erigir-me a mim mesmo em vida o monumento que morto não me erigireis vós. Erigi esta estátua porque sei que a odiais.
EPIGRAMA 3
A Guarda Nacional anda caçando um homem. Um homem espera esta noite chegar à fronteira. O nome desse homem não se sabe. Há muitos outros homens enterrados numa cova. A quantidade e o nome desses homens não se sabe. Nem se sabe o lugar nem a quantidade de covas. A Guarda Nacional anda caçando um homem. Um homem espera esta noite sair de Nicarágua.
ME CONTARAM…
Me contaram que estavas enamorada de outro e então fui ao meu quarto e escrevi esse artigo contra o Governo por ele que estou preso.
III
Eu destribuí panfletos clandestinos, gritei: VIVA A LIBERDADE! em plena rua desafiando aos guardas armados. Eu participei na rebelião de abril: mas empalideço quando passo por tua casa e um só olhar teu me faz tremer.
SALMO 1
Bem-aventurado o homem que não segue as consígnias do Partido nem assiste a suas reuniões ordirnárias nem se senta na mesa com os gangsters nem com os Generais no Conselho de Guerra Bem-aventurado o homem que não espiona seu irmão nem delata a seu companheiro de colégio Bem-aventurado o homem que não lê os anúncios comerciais nem escuta seus rádios nem crê em seus slogans
Será como uma árvore plantada junto a uma fonte.
TE DOU CLÁUDIA…
Te dou Cláudia, estes versos, porque tu és a dona. Os escrevi simples para que tu os entendas. São para ti somente, mas se a ti não te interessam, um dia se divulgarão, talvez por toda Hispanoamerica… E se ao amor que os ditou, tu também o desprezas, outras sonharão com este amor que não foi para elas.
E talvez verás, Cláudia, que estes poemas, (escritos para conquistar-te) despertam em outros casais enamorados que os leiam os beijos que em ti não despertou o poeta.
epigrama
Cuidado, Claudia, quando estiver comigo, porque o gesto mais leve, qualquer palavra, um suspiro de Claudia, o menor descuido, talvez um dia o examinem eruditos, e este baile de Claudia se recorde por séculos.
Claudia, estou te avisando.



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