Paulo José Vieira (Brasil)
- 16 de fev. de 2011
- 4 min de leitura
Aqui, uma pequena seleção de poemas de meu amigo Paulo José Vieira. Uma dessas figuras impressionantes de se conhecer, que fazem a gente se sentir pequeno-querendo-ser-grande.
XIII. Caridade
Quando o restaurante fecha ele lava bem as mãos dos vermes de todas as notas antes de pegar nos restos de folhas que usará no sopa que dará aos pobres
XVIII.
Uma obreira da igreja me chamou para entrar, quando eu caminhava na Santa Isabel Não insistiu, nos últimos meses minha fisionomia é alegre e de pouco colesterol Aceitei colocar o meu nome no caderno de orações, como minha gratidão E coloquei também o nome da Andressa, do Alberto Caeiro e do filho que terei
Ela se preocupou comigo, ela não tinha metas de quantos pedestres pôr pra dentro Ela me disse que Deus me ama e que pediria a Deus por mim e eu respondi Que todo o Universo a ama, até Rimbaud e Judas, e que ela não se esquecesse Do semáforo, a força elétrica de gesto humano que paira sobre nós e nos aconselha
Ela quis que a maior coisa do mundo e que fez o mundo perdesse tempo comigo Essa noite rezarei por ela a Roberto Piva e não amaldiçoarei o mundo por tê-la Proibido da poesia, porque minha poesia não é o Evangelho e nunca acreditei que O Evangelho devesse chegar a toda criatura, o Evangelho nunca será pronto
Minha irmã no átomo, de saia longa e saia de uma verdade sem cor, amiga de Deus Quero ouvir o Evangelho do seu amor, o Evangelho do que fez você ser obreira O Evangelho do dia em que nasceu até os doze anos, e depois dos trinta até agora Quero ouvir sua zombaria ao professor de olhos grandes, aquela ainda é você e bela
O muro do estacionamento da igreja anuncia cinco sessões de descarregos às terças-feiras Usei as cinco sessões em minha casa para esvaziar minha mesa e ter dois livros por vez Fico pensando que tudo é sacro se nada for, se o sagrado for melhor repartido Aprendi com a obreira a propor sem malícias e a questionar no ouvinte o que proponho
Queria que o pastor roubasse a dicção da obreira e conhecesse o Evangelho dela E o usasse nas sessões do descarrego, pois não creio que se descarregue algo a berros Ele poderia usar de frases longas e mais ou menos autônomas, umas após as outras As pessoas iam perdendo o conteúdo e ficando com o ritmo, até que ao final o branco
Ou as pessoas poderiam ouvir João Gilberto e lerem o Whitman rezar E comentar os poemas uns dos outros, cada poema fosse lido uma só vez Como o Evangelho do instante, como o esquecimento do Evangelho dos livros apócrifos Que todos se vissem ali não concorrentes para o Céu, para o hospital, para um emprego
Atualizarão o Evangelho diariamente, e a voz do pastor será a voz daquela pequena obreira
XXXI. Terceirização
Antes de mais nada, me demitirão pela firma e me contratarão pela firma contratada pela firma
A diferença entre o que eu poderia ser e o que eu era na primeira firma é o meu primeiro patrão
A diferença entre o que eu era na primeira firma e o que eu serei na segunda firma será o meu segundo patrão
A diferença entre o que eu poderia ser e o que eu serei na segunda firma é um trio de diletantes portando enciclopédias
Se eu martelasse menos a metalúrgica teria ouvidos intactos para ouvir de madrugada Stan Getz tocar saxofone do seu apartamento
(Ousaram terceirizar o Stan Getz em Kenny G)
Eu poderia ser uma porcentagem do Stan Getz e de mais um cardápio da humanidade, sem virtuose Ter minhas cinco reencarnações na única vida que tenho e fazer não só bigornas, mas o que eu vim fazer aqui: viver
Eu poderia promover lingotes de alumínio a saxofones e conhecer tanto o processo de produção a ponto de ao final tocá-los a ponto de Sartre explicando a Jean Genet quem foi Jean Genet
Eu abriria um orfanato e resgataria todos os bilhetes não premiados da probabilidade do que eu não fui e reciclaria os tickets usados de metrô em vales (arbitrários feito notas) que pudessem ser trocados por horas de folga
Mas, antes disso, me demitirão pela firma e me contratarão pela firma contratada pela firma E dirão que o sonho é luxo agora que o sono é muito
XXXVI.
Um trompete em silêncio, guardado na caixa e enfiado na mochila da garupa da moto só o barulho da moto do Cássio*
Insisto, o trompete está em silêncio está apenas sendo transportado
E dizer que não é hora de ouvi-lo – porque ele vai na garupa da moto e o Rodrigo* não pode tocar agora porque usa as mãos para se segurar e vai do ensaio direto para o trabalho noturno nos Correios – é já ouvir o trompete soar
Pelo menos na poesia é assim O aço do trompete toca por si só crava um ré metálico na imaginação E por isso os católicos e Descartes condenavam o corpo que há na imaginação
Mas, se eu disser “1, 2, 3… meu infarto agora!” nada me acontecerá – veja, ainda escrevo Porque o músculo do infarto (esse que vem acabar a poesia quando menos se espera) não se rende aos lábios sonoros da poesia
* Cássio, Rodrigo, Paulo, Gera e eu tocamos na banda “Paramnese“.



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