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Otto René Castillo

  • 7 de ago. de 2010
  • 4 min de leitura


Otto René Castillo, poeta guerrilheiro, é hoje muito celebrado em seu país, a Guatemala. Sofreu influência decisiva de Roque Dalton (outro poeta guerrilheiro) que conheceu em seu exílio em El Salvador (teve que fugir da Guatemala apenas com 18 anos devido a sua militância estudantil). Fundou com Dalton um círculo literário muito influente (Círculo Literário Universitário), responsável por publicar muitos dos principais poetas da américa central que compartilhavam de suas posições político-estéticas. Otto tornou-se rapidamente o ideólogo desse grupo, apesar da figura mais carismática e conhecida ser o Dalton. As influências de Otto por essa época eram Neruda, Hernandez e César Vallejo.

Otto dividiu em 1955 o prêmio Poesia da América Central com Dalton e posteriormente uma antologia de sua obra, chamada Poemas, recebe o importante prêmio Casa de las Américas, em Havana (sonho de todo poeta lutador ;). Depois do assassinato de Otto pelo exército da Guatemala (foi queimado vivo junto com vários outros guerrilheiros), Dalton recebeu da irmã de Otto vários poemas inéditos e escreveu um longo texto sobre esse importante intelectual e artista. Abaixo segue apenas um trecho que me pareceu importante:

“Extrovertido, vital, de personalidade forte e simpática, não foi, no entanto, uma figura isenta dos erros e das debilidades dos jóvens centroamericanos de sua época. Seu afã de viver intensa e apaixonadamente a vida, cobrou seu preço frente à severidade de seus camaradas maiores em idade e experiência e lhe significou conflitos, rompimentos, problemas. Pelo contrário, os jovens lhe aceitaram sempre em sua rica totalidade humana, necessariamente contraditória com o meio. Quiçá o motivo mais importante de citar este aspecto de sua personalidade seja o de salvá-lo do risco, que pode propiciar-lhe sua morte admirável, de passar à história como um santo, como um desses personagens planos a que nos tem acostumado o apologismo póstumo.” (Roque Dalton)

Curisoso é que Dalton tampouco deixava de ser uma figura apaixonada pela vida e polêmica, gerando tensões com seus companheiros de partido por seu jeito brincalhão e heterodoxo… enfim, seguem tra(b)duções.

Poética

Bela encontra a vida quem a constrói bela. Por isso amo em ti o que tu amas em mim: a luta pela construção da beleza de nosso planeta.

Resposta

Se me perguntasse o que é o que mais quero sobre a amplidão da terra, eu te responderia: a ti, meu amor, e à gente simples de meu povo. Doce és, como a terra. Como ela frutífera e formosa. Mas a ti desejo. Não por bela que és. Nem pelo fluvial de teus olhos, quando vêem que vou e venho, buscando, como um cego, a cor que de mim se perde na memória. Nem pelo selvagem de teu corpo indomável. Nem pela rosa de fogo, que se entrega quando a levanto do fundo do sangue com as mãos jardineiras de meus beijos. A ti desejo, porque és a minha. A companheira que a vida me deu, para ir lutando pelo mundo. Amo a gente simples de meu povo, porque são sangue que necessito, quando sofro e me dessangro; homens que necessitam de mim quando sofrem. Porque nós somos os mais fortes, mas também os mais débeis. Somos a lágrima. O sorriso. O dolorosamente humano. A unidade do melhor e do mais deplorável. O que canta sobre a terra e o que chora sobre ela. Deles recebi esta voz, este coração inquieto que me apóia e me fortalece e me leva consigo. Por isso os amo como são e também como serão. Porque eles são bons e serão melhores. E juntos jogamos com o destino, com nossas mãos que tudo constroem. Assim amo eu a vida e amo a humanidade, meu amor, quando te amo e amo aos homens simples de meu belo e horrendo país.

Holocausto do abraço

Eu, que amo como ninguém a poesia, que compreendo a tristeza de uma árvore; a dor de um poeta, sua imensidão condenada a um espaço exíguo; seu ir e vir do sonho ao zelo; seu galope louco pelos territórios, onde a estrela fala, o fogo investe e a vida e a morte são amantes do ciclone e do cisne; eu, não posso chegar a abraçar a todos os poetas; ouvir como cresce a erva azul da poesia desde sua alma; navegar pelos rios escondidos em suas mãos; ouvir como caem o vento no desfiladeiro de suas palavras mais amargas; nascer também desde seu peito como uma rosa escura e anônima e dizer-lhe ao tímido: toma meu braço, marcharemos juntos. E fazer-lhe sentir o resplendor da amizade mais ampla, para que não seja menor sua dor; seu agônico passo pelo mundo. E ensinar-lhe a tristeza a bela cintura de uma risada, para que sua tristeza seja doce lamparina amorosa e não lírio que se apaga quando a solidão se acende. E ao poeta de vigorosos aços cultivar-lhe no peito a rosa mais bela e maior para que não passe pelo mundo com a pupila cega e a ternura manca e saiba amar a vida donde a mesma surge com seu rosto flamejante. E entender a todos e a todos dizer-lhes: vive, porque a vida é a poesia mais alta.

 
 
 

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