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Omissão

  • 8 de out. de 2011
  • 3 min de leitura

É claro que o poeta político, se é que existe isso, não é aquele que só faz poesia de conteúdo político… A vida lhe interessa como um todo, mas é claro, questões urgentes e necessárias o fazem olhar de uma certa forma o mundo, do ponto de vista de quem luta por transformá-lo. Escrever sobre outras coisas (não-políticas) não é sinal de abandono da luta… porém, em alguns casos, claro, pode significar isso sim… Estou relendo a obra toda do Ferreira Gullar e é impressionante observar como, com o passar do tempo, ele abandona as ruas, a cidade, o conflito da vida capitalista, para se fechar cada vez mais em seu umbigo… Veja, fazer poesia sobre seu umbigo é sempre necessário… mas quando ela faz parte de um movimento que se conecta à vida real e à luta lá de fora, ela ganha sempre outros contornos… Em Gullar, com a perda do contato com esse espaço social de conflitos e contradições, o voltar-se para seu umbigo torna-se algo desesperador, bossal e caquético (para quem acompanha de perto sua trajetória)… Eis um poema em que, talvez, se deu seu último lampejo de lucidez…

OMISSÃO(Ferreira Gullar)

Omissão

I

Não é estranho que um poeta político dê as costas a tudo e se fixe em três ou quatro frutas que apodrecem num prato em cima da geladeira numa cozinha da Rua Duvivier?

E isso quando vinte famílias são expulsas de casa na Tijuca, os estaleiros entram em greve em Niterói e no Atlântico Sul começa a guerra das Malvinas.

Não é estranho? por que então mergulho nessa minicatástrofe doméstica de frutas que morrem e que nem minhas parentas são? por que me abismo no sinistro clarão dessas formas outrora coloridas e que nos abandonam agora inapelavelmente deixando a nossa cidade com suas praias e cinemas deixando a casa onde frequentemente toca o telefone? para virar lama.

II

É compreensível que tua pele se ligue à pele dessas frutas que apodrecem pois ali há uma intensificação do espaço, das forças que trabalham dentro da polpa (enferrujando na casca a cor em nódoas negras) e ligam uma tarde a outra tarde e a outra ainda onde bananas apodreceram subvertendo a ordem da história humana, tardes de hoje e de ontem que são outras cada uma em mim e a mesma talvez no processo noturno da morte nas frutas e que te ligam a ti através das décadas como um trem que rompe a noite furiosamente dentro e em parte alguma – é compreensível que dês as costas à guerra das Malvinas à luta de classes e te precipites nesse abismo de mel que o clarão do açúcar nos cega e diverte ser espectador da morte, que é também a nossa, e que nso atrai com sua boca de lama sua vagina de nada por onde escorregamos docemente no sono e é bom morrer no teatro vendo morrer pêras ardendo na sua própria fúria e urinando e afundando em si mesmas a converter-se em mijo, a pêra, a banana ou o que seja e assistes à hecatombe no prato sob uma nuvem de mosquitos e não ouves o clamor da vida aqui fora na rua na fábrica na favela do Borel não ouves o tiro que matou Palito e não ouves, poeta, o alarido da multidão que pede emprego (são dois milhões sem trabalho há meses sem ter como dar de comer à família e cuja história é assunto arredio ao poema).

É a morte que te chama? É tua própria história reduzida ao inventário de escombros no avesso do dia e não mais esperança de uma vida melhor? que se passa, poeta? adiaste o futuro?


 
 
 

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