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Olga Orozco – traduções

  • 21 de jun. de 2010
  • 3 min de leitura

Resgatando e melhorando duas antigas tra(b)duções de poemas de Orozco que, por sua vez, me tra(b)duzem 😉

O jardim das delícias (Olga Orozco)

Acaso é nada mais que uma zona de abismos e vulcões em plena ebulição, predestinada às cegas para as cerimônias da espécie nesta inexplicável travessia para baixo? Ou talvez um atalho, uma emboscada obscura onde o demônio aspira a inocência e sela à sangue e fogo sua condenação na estirpe da alma? Ou quiça tão somente uma região marcada como uma cruz de encontro e desencontro entre dois corpos submissos como sóis? Não. Nem viveiro da Perpetuação, nem frágua do pecado original, nem armadilha do instinto, por mais que apenas um vento exasperado propague por sua vez a fumaça, a combustão e a cinza. Nem sequer um lugar, ainda que se precipite o firmamento e haja um céu que foje, inumerável, como todo instantâneo paraíso.

Sozinha, só um número insensato, uma prega nas membranas da ausência, um relâmpago sepultado em um jardim.

Mas basta o desejo, o sobressalto do amor, a sirena da viagem, e então é mais um nó tenso em torno do feixe de todos os sentidos e suas múltiplas ramas ramificadas até a árvore da primeira tentação, até o jardim das delícias e suas secretas ciências de extravio que se expandem de repente da cabeça até os pés igual que um sorriso, o mesmo que uma rede de ansiosos filamentos arrancados dum raio, a corrente eriçada arrastando-se em busca do extermínio ou da saída, escorrendo-se para dentro, rastejada por esses sortilégios que são como tentáculos de mar e que arrebatem com vertigem indizível até o fundo do tato, até o centro sem fim que se desfunda caindo desde do alto, enquanto passa e trespassa essa orgânica noite interrogante de cristas e focinhos e buzinas, com ofegar de besta fugitiva, com seu flanco atiçado pelo chicote do horizonte inalcançável, com seus olhos abertos aos mistério da dupla treva, derrubando com cada sacudida a nebulosa maquinaria do planeta, pondo em suspensão corolas como lábios, esferas como frutos palpitantes, borbulhas onde pulsa a espuma de outro mundo, constelações extraídas vivas de seu prado natal, um êxodo de galáxias semelhantes a plumas girando loucamente em um grande aluvião, nesse torvelinho estrondoso que já se precipita pelo funil da morte com todo o universo em expansão, com todo o universo em contração para o parto do céu, e faz estalar de repente a redoma e dispersa no sangue a criação.

O sexo, sim, melhor, uma medida: a metade do desejo, que é apenas a metade do amor.

Para se fazer um talismã (Olga Orozco)

Só é necessário teu coração feito à viva imagem de teu demônio ou de teu deus. Apenas seu coração, como um incensário em brasa para a idolatria. Nada mais que um indefeso coração enamorado.

Abandone-o às intempéries, deixa-o lá onde a erva uiva suas queixas de ama louca e não o permite dormir, lá onde o vento e a chuva derrubam seu castigo em um golpe de azul-calafrio mas sem convertê-lo em mármore e nem partí-lo em dois lá onde a escuridão abre suas tocas à todas as selvagerias e não o deixa, ah, e não o permite esquecer…

Ajeita-o, depois, do alto de seu amor ao fervedouro fundo das brumas. Então, deixa-o secando no surdo regaço da pedra, e escava nele, com uma agulha fria e funda, até arrancar o último grão de esperança.

Permita que o sufoquem as febres e a urtiga, que o sacuda o trote ritual das matilhas, que o envolva a injúria feita com os farrapos de suas antigas glórias. E quando um-dia for um-ano o aprisione com as garras dum século, antes que seja tarde, antes que seja nunca, antes que se converta em múmia deslumbrante, e abre de par em par, pétala-por-pétala, todas sua feridas: e as exiba ao sol piedoso do meio-dia como um mendigo o faria, e lamenta, em delírio, no deserto, até que somente o eco de um nome cresça ali dentro como a fome cresce em fúria: o golpear incessante da colher contra um prato vazio.

Se ainda pulsa, chegou até aqui como a viva imagem de teu demõnio ou teu deus: eis aí teu talismã mais inflexível que a lei, mais forte que as armas e o mal de teu inimigo. Guarde-o na vigília de teu peito como um sentinela, mas… alerta! Pois pode crescer aí dentro como a mordedura da lepra, pode se tornar seu carrasco: o inocente monstro, o insaciável comensal de tua morte!


 
 
 

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