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“Não tive tempo para ter medo”

  • 8 de dez. de 2011
  • 3 min de leitura


No dia 05 de dezembro completou 100 anos do nascimento do lutador revolucionário e poeta Carlos Marighella. Aqui segue uma pequena homenagem com uma seleção de seus poemas. Cada vez mais são divulgadas suas poesias o que nos ajuda a compreender melhor quem foi esse grande homem. Ao final, segue uma canção feita recentemente por Mano Brown em homenagem à Marighella. Para saber mais sobre quem foi Marighella, sugiro este link.

LIBERDADE

Não ficarei tão só no campo da arte, e, ânimo firme, sobranceiro e forte, tudo farei por ti para exaltar-te, serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te dominadora, em férvido transporte, direi que és bela e pura em toda parte, por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma, que não exista força humana alguma que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for, possa feliz, indiferente à dor, morrer sorrindo a murmurar teu nome”

(Presídio Especial, 1939)

O PAÍS DE UMA NOTA SÓ

Não pretendo nada, nem flores, louvores, triunfos. nada de nada.

Somente um protesto, uma brecha no muro, e fazer ecoar, com voz surda que seja, e sem outro valor, o que se esconde no peito, no fundo da alma de milhões de sufocados. Algo por onde possa filtrar o pensamento, a idéia que puseram no cárcere.

A passagem subiu, o leite acabou, a criança morreu, a carne sumiu, o IPM prendeu, o DOPS torturou, o deputado cedeu, a linha dura vetou, a censura proibiu, o governo entregou, o desemprego cresceu, a carestia aumentou, o Nordeste encolheu, o país resvalou.

Tudo dó, tudo dó, tudo dó…

E em todo o país repercute o tom de uma nota só… de uma nota só…

RONDÓ DA LIBERDADE

É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo, mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos, que não é racional renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre… O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo, e pode mesmo existir quando não se é livre. E no entanto ele é em si mesmo a expressão mais elevada do que houver de mais livre em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer.


PÃO DE ACÚCAR

Manhã clara de sol toda ouro e azul e no fundo do céu, a corcova apontando, a silhueta do Pão de Açúcar. Bem no alto o bondinho – Lá embaixo a floresta, o verde tropical, e mais embaixo, profundo, o mar rolando em espumas na praia. Pão de Açúcar – uma doce mentira! Nunca foste pão, és somente granito, rocha viva, ornamento selvagem da natureza dos trópicos. Bom seria que foras mesmo um pão enormíssimo, um pão de verdade, que daria talvez para alimentar muito tempo os famintos que rolam pela aí na cidade. E que te olham, Pão de Açúcar, e não podem te ver, que a miséria os cegou, secando-lhes para sempre os olhos da poesia.

CAPOEIRA

Capoeira quem te mandou, capoeira, foi teu padrinho.

O berimbau retinindo na corda retesa, cadência marcada da ginga do jogo.

Zum, zum, zum, capoeira mata um.

A perna direita lançada pra frente, o peso do corpo equilibrado na esquerda, os braços jogando de um lado pro outro…

Capoeira quem te ensinou?

De repente uma queda, o capoeira na terra, o aú, de cabeça pra baixo, as pernas no ar, a rasteira varrendo como foice no chão, o corta-capim, o rabo-de-arraia, e o inimigo caindo de supetão, ao puxavante da baianada.

Luta africana que o mestiço encampou, que os guerreiros da mata, quilombos, palmares, souberam jogar. Que o angolano nos trouxe, que o mestre Pastinha nos soube ensinar.

Coreografia. Jongo do povo.

Zum, zum, zum capoeira mata um.


CANÇÃO DOS LÍRIOS

Eu canto à vida, eu canto a liberdade, como os lírios crescem em nossos campos, livres, selvagens.

Se já não crescem como antes, existe algo sombrio, é preciso abrir uma clareira no bosque.

Não me limitarei ao campo da arte… e não escolherei momento, tempo e modo, de exaltar-te, lírio, flor, canção, fruto, amor – a liberdade. Não calarei jamais e sempre te direi a mais bela, a mais pura.

Se já não crescem como antes os lírios em nossos campos, existe algo sombrio, é preciso abrir uma clareira no bosque.

MÚSICA DE MANO BROWN EM HOMENAGEM À MARIGHELLA


 
 
 

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