Mais poesias de Idea Vilariño
- 12 de jan. de 2011
- 2 min de leitura

Um pouco mais de tra(b)duções de Idea Vilarinõ. Achei na internet um arquivo de áudios com a própria Idea lendo dezenas de poemas. Estou disponibilizando esse arquivo para download aqui. Reparem que coloquei alguns áudios dela declamando em alguns poemas, tanto deste post como no anterior! Aqui vão misturados poemas de amor e poemas políticos.
O QUE SINTO POR TI É TÃO DIFÍCIL
O que sinto por ti é tão difícil. Não é de rosas abrindo-se no ar, é de rosas abrindo-se na água o que sinto por ti. Isto que roda ou se quebra com tantos gestos teus ou que com tuas palavras despedaças e que logo incorporas em um gesto e me invade nas horas amarelas e me deixa uma doce sede dobrada. O que sinto por ti, tão doloroso como pobre luz das estrelas que chega dolorida e fatigada. O que sinto por ti, e que no entanto anda tanto que às vezes não chega.
TE ESTOU CHAMANDO
Na voz de Idea: http://www.camaracom.com.br/Teestoyllamando.mp3
Amor desde a sombra desde a dor amor te estou chamando desde o poço asfixiante das recordações sem nada que me sirva nem te espere. Te estou chamando amor como ao destino como ao sonho à paz te estou chamando com a voz com o corpo com a vida com tudo o que tenho e que não tenho com desesperação com sede com pranto como se fosses ar e eu me afogasse como se fosses luz e eu morresse. Desde uma noite cega desde o olvido desde horas fechadas no solo sem lágrimas nem amor te estou chamando como a morte amor como a morte.
BUSCAMOS
Buscamos cada noite com esforço entre terras pesadas e asfixiantes esse leve pássaro de luz que arde e se nos escapa em um gemido.
COM OS BRAÇOS ATADOS
Com os braços atados às costas um homem um homem feio e jovem um rosto algo vazio com os braços atados às costas o afundavam na água daquele rio – um pouco nada mais o estavam torturando não matando – com os braços atados às costas.
Não falava e o chutavam o chutavam o ventre os testículos se enrolava no solo o chutavam.
Agora mesmo hoje o estão chutando.
A JOSÉ VARONA
Era porto-riquenho e era estudante moreno delicado.
Foi o primeiro creio que me mostrou no piso da noite lá embaixo estrelada contra o solo Londres como uma jóia agonizante.
Tinha vinte anos tantas coisas tua causa Porto Rico.
Não sei que me contaste de teu pai que era alguém quiçá que se opunha seguramente.
Conheceste a Mauricio me dizias e irias ao Vietnam logo talvez.
Depois de tempinho olhando-te dormido em teu canto tão pouco mais que um menino eu invejei tua vida.
E foi ao Vietnam e foi pouco depois.
Os yanquis tiveram também algo para ti não mais que uns fragmentos de uma bomba e agora tu teus vinte anos teu amor porto-riquenho – disse o jornal de hoje – por lá estão estirados José Varona mortos.



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