Idea Vilariño (Uruguai, 1920-2009)
- 10 de jan. de 2011
- 7 min de leitura

Eu estava chateado por só traduzir poetas revolucionários… me decidi por procurar poetisas revolucionárias =) Encontrei de pronto Idea Vilariño, uma das maiores expressões poéticas do Uruguai. Foi da famosa geração literária uruguaia de 45 ao lado de Mario Benedetti (de quem era grande amiga), Juan Carlos Onetti (que foi seu amante por alguns anos), Emir Rodriguez Monegal…
Filha de um poeta anarquista, com irmãos chamados Alma, Númen, Poema e Azul, e com o próprio nome de Idéia (Idea), não é de surpreender o caminho libertário trilhado por Vilariño. Idea converteu-se em “mito literário” de sua geração, tão intensa quanto reservada, tão apaixonada quanto solitária, autora de versos amargos e desolados, dona duma personalidade e posição diante da vida e da literatura sui generis. Rejeitou todos os prêmios e nomeações que recebeu, não era afeita a publicidade e às luzes próprias dos círculos literários burgueses. Raramente concedeu entrevistas. Apesar disso, ganhou vários prêmios internacionais e sua poesia se encontra traduzida em diversas línguas.

Sua poesia é marcada por versos curtos, quase sem rima ou métricas fixas, pela bela rítmica e simplicidade. Já faz parte do dia-a-dia do povo uruguaio, tendo vários de seus poemas musicados. Idea assume firme compromisso com a causa do socialismo e da libertação nacional. A partir de 1948, escreve no semanário Marcha, que reunia o melhor da intelectualidade antiimperialista uruguaia. Rompe com a revista em 1955 porque um verso seu (“um lenço com sangue, sêmen, lágrimas”) é censurado pelo mais puro moralismo de esquerda!!! Retorna a Marcha em 1967, em razão do acirramento da luta política no Uruguai, e fica até o fechamento pela ditadura em 1973. Após a queda do regime, em 1985, funda, junto com Benedetti e outros remanescentes de Marcha, o semanário Brecha, com o qual rompe em 1993 por divergências sobre Cuba (Idea apoiava incondicionalmente a revolução).
Além de sua poesia marcadamente engajada, Idea ficou muito conhecida por sua poesia de amor. Sua vida amorosa é profundamente marcada pelo turbulento envolvimento com o gigante da literatura uruguaia, Juan Carlos Onetti. Neste primeiro contato, selecionei mais poesias de amor, uma poesia sobre a morte do Che, e uma música do fantástico grupo Los Olimareños feita a partir da poesia de Idea chamada “Ya me voy pa la guerrilla” (me desculpem, mas não consegui ouvir ainda com calma para por a letra da música… tampouco achei na internet). Também segue, ao final, uma curiosidade: uma carta de Mário Benedetti respondendo ao questionamento de Idea sobre a aceitação ou não do prêmio Guggenheim (EUA)…
COMPARAÇÃO
Na voz de Idea: http://www.camaracom.com.br/Comparacion.mp3
Como na praia virgem dobra o vento o leve junco verde que desenha um delicado círculo na areia
assim em mim te recordo.
SABES
Na voz de Idea: http://www.camaracom.com.br/Sabes.mp3
Sabes dissestes nunca fui tão feliz como esta noite. Nunca. E isso me dissestes no mesmo momento em que eu decidia não te dizer sabes seguramente me engano mas creio que esta me parece a noite mais bonita da minha vida.
O AMOR
Na voz de Idea: http://www.camaracom.com.br/Elamor.mp3
Um pássaro me canta e eu lhe canto me gorjea ao ouvido e lhe gorjeo me fere e eu o sangro me destroça o quebro me desfaz o rompo me ajuda o levanto pleno todo de paz todo de guerra todo de ódio de amor e solto geme sua voz e gemo ri e rio e me olha e o olho me diz e eu lhe digo e me ama e o amo – não se trata de amor damos a vida- e me pede e lhe peço e me vence e o venço e me acaba e o acabo.
A NOITE
Na voz de Idea: http://www.camaracom.com.br/Lanoche.mp3
A noite não era o sonho era sua boca era seu bonito corpo despojado de seus gestos inúteis era sua pálida cara olhando-me na sombra. A noite era sua boca sua força e sua paixão era seus olhos sérios essas pedras de sombra caindo-se em meus olhos e era seu amor em mim invadindo tão lenta tão misteriosamente.
DIZER NÃO
Dizer não dizer não atar-me ao mastro mas desejando que o vento o derrube que a sereia suba e com os dentes corte as cordas e me arraste ao fundo dizendo não não não mas a seguindo.
QUASE TODAS AS VEZES
Conheço tua ternura como a mesma palma de minha mão. Às vezes entre sonhos a recordo como se já a houvesse perdido alguma vez. Quase todas as noites quase todas as vezes que adormeço nesse mesmo instante você com teu grave abraço me confina me rodeia me envolve na morna caverna de teu sonho e apoias minha cabeça sobre teu ombro.
DIGO QUE NÃO MORREU
(Tradução: Sonia Lanzillotte)
Digo que não morreu eu não o creio – não o deixaram ser visto pelo irmão e tantas outras coisas – e além disso como ia morrer o Che quando restava tanta tarefa por fazer quando tinha que percorrer a América Latina formoso como um raio incendiando-a como um raio de amor destruindo e criando destruindo e criando, como em Cuba. Como ia morrer, o Che? Como ia morrer? Mas essa foto atroz aquela bota como partia a alma aquela bota a suja e norte-americana bota mostrando a ferida com desprezo. Não tenho que acreditar. Houve tantas contradições – não o deixaram ser visto pelo irmão – e o deram por morto tantas vezes. -Como ia morrer, o Che. Ele muito menos se ia deixar cercar nesse vale ia sair em um descampado ia se deixar estar ali a deixar que lhe estraçalhe as pernas a metralhadora. Eu não vou acreditar ainda que chore Cuba ainda que haja luto em toda a América Latina. Não tenho que acreditar. Um dia um belo dia se dirá… está no Brasil ou se levantará na Colômbia ou Venezuela a ajudar a ajudar-nos e nesse dia uma onda de amor americano moverá o continente levantará o Che da América. Não creio que morreu não posso crê-lo e não vou crê-lo ainda que o afirme o próprio Fidel Castro. Mas amigos irmãos não esquecer não esquecer nunca o rosto desprezado o coração mais sujo que essa bota nem a mão vendida lembrar-se do rosto e da mão lembrar-se do nome até que chegue o dia e quando chegue quando soe a hora lembrar-se do nome e do rosto desse tenente Prado*.
* Gary Prado Salmón: tenente que capturou Che
“YA ME VOY PA LA GUERRILLA” MUSICADO POR LOS OLIMAREÑOS

CARTA DE BENEDETTI À IDEA VILARIÑO
(Tradução: Henrique Júdice)

Madri, 2 de setembro de 1982
Querida Idea: escrevo-lhe no único pedaço de papel que tenho à mão neste hotel de Madri. Faz dois dias que cheguei da Dinamarca (estive com Daniel (1) o Cantor) e amanhã parto rumo ao México. Luz (2) acaba de ler para mim, por telefone, sua carta-consulta, e aqui estou – procurando, como você me pede, ser absolutamente sincero em minha resposta. E ela não é fácil, dadas as circunstâncias atuais. Você sabe que, por volta de 65 ou 66, me ofereceram a Guggenheim (por indicação de Frasconi [3]) e eu a recusei. Antes, no entanto (em 59/60), havia aceito o convite do American Council para assistir peças de teatro nos Estados Unidos durante cinco meses. Essa viagem me transformou num anti-ianque vitalício. Desta forma, em minha própria história, constam um Sim e um Não. Essa aparente contradição se explica – creio – porque mudamos, e é provável que tenha podido decidir o Não de 65 em razão do que aprendi quando do Sim de 60. Sei de gente de esquerda (como Haroldo Conti (4) e, mais recentemente, Jorge Musto [5]) que recusou a Guggenheim, e sei de outras pessoas, também de esquerda (como Augusto Boal, além do já citado Frasconi), que a aceitou em diversas épocas sem que isso tenha debilitado sua militância. Talvez por isso, minha tendência atual é não ser esquemático quanto ao assunto, menos ainda nas atuais circunstâncias do Cone Sul. Creio que o essencial é como se sente cada um. Se alguém aceita isso a contrapelo de si mesmo, o resultado pode ser negativo; mas se encontra em si mesmo uma motivação legitima, provavelmente será bom. Não descarte, além do mais, a hipótese de que, apesar de tudo, te neguem o visto. No ano passado, a universidade e a ordem dos advogados de Porto Rico me convidaram para uma conferência e leitura de poemas e decidi aceitar, primeiro porque era Porto Rico e segundo porque os organizadores eram independentistas. No entanto, tudo ficou na estaca zero, pois o Departamento de Estado me negou o visto. A essa altura, você provavelmente deve estar pensando que ainda não te respondi. Mas a verdade é que, sinceramente, não posso ir além disso, pois eu tampouco sei claramente qual deve ser sua resposta. Se você me tivesse feito a pergunta em 1960, eu lhe diria que não, sem hesitar. Mas hoje, o conselho não pode ser tão taxativo, e creio que as razões que você menciona em sua carta são muito convincentes, e também é convincente o espaço que a aceitação abriria a seu próprio trabalho. Ou seja, retorno ao que disse antes: o essencial, para que tudo não se transforme em frustração, é o estado de ânimo, a disposição que permita superar as interpretações alheias e enfrentar os próprios escrúpulos. Dentro de aproximadamente 20 dias, estarei de volta; digo isso para o caso de que queiras escrever-me novamente. Não sei se sabes que, no fim de julho, morreu a mãe de Claribel (6). Certamente me encontrarei no México com ela e com Bud. Parece que estarão novamente em Mallorca no começo de outubro, pois já terminaram sua segunda etapa nica (7). Agora estou me dedicando a um novo livro de contos, mas ainda falta bastante. Lembranças a Jorge(8), beijos de Luz e um forte abraço de Mario.
NOTAS (1) Daniel Viglietti, cantor e compositor uruguaio (Nota do Tradutor). (2) Luz López Alegre, esposa de Benedetti (N do T). (3) Antonio Frasconi (1919), pintor e gravador uruguaio. Foi chargista de Marcha (Nota de Brecha). (4) Escritor argentino (1925-76) assassinado pela ditadura de Videla (N do T). (5) Escritor e dramaturgo uruguaio nascido em 1927 (N do T). (6) Claribel Alegría, a poeta salvadorenha, Bud é seu marido (Nota de Brecha). (7) Diminutivo carinhoso de nicaraguense (N do T). (8) Jorge Liberatti, marido de Idea (Nota de Brecha).



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